segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lê um livro, planta uma àrvore, mata um bófia!

Ler é como ver um filme na nossa cabeça. Quando estamos a ler um livro, a maneira como imaginamos os espaços ou as personagens é algo muito individual. Muitas vezes o livro até se transforma em filme.. o que nos permite visualizar numa tela daquilo que antes eram apenas palavras.

Há 5 meses vim para Inglaterra morar para uma residência que não tem televisão. Em Lisboa tinha tv na sala e no quarto e sentia-me feliz e realizado quando pegava e deambulava para cima e para baixo na minha box da Meo em busca de algo que me trouxesse ocupação para os momentos que se seguiam. Tinha tudo (excepto canais obscenos claro), desde a Sport Tv até aos filmes, passando pelos directos do Biggest Looser e Casa dos Segredos. Depois de um dia de trabalho ou num fim-de-semana de mau tempo o que podia ser melhor que isto?

A verdade é que nos últimos meses recuperei o velho hábito da leitura e estou muito entusiasmado com isso. Em criança lia e ficava fascinado com as histórias de jovens aventureiros como "Uma Aventura", "Clube das Chaves", "Triangulo Jota" e as "Viagens no Tempo" de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, ilustrações de Arlindo Fagundes (haha lembram-se do anúncio da tv?). A minha mãe levava-me às Amoreiras aos fins-de-semanas e não saiamos de lá sem um livro destes que custava à volta de 650 escudos. E aquela sensação de colocar na prateira mais um volume no armário já colorido e contribuir para o aumentar da colecção era tudo!

Também lia Patinhas, Tintim, Asterix, Mafalda e Lucky Luck. A banda desenhada que depois evoluiu para o Calvin & Hobbes e outros do género também faziam parte das prateleiras coloridas. Tinha também aqueles livros verdes de aventuras que se jogavam com dados e nos davam ordens do género: "Se queres lutar contra o monstro de 3 cabeças vai para a página 397, se queres entrar na porta do castelo de Zion vai para a 408". Muitas vezes morria mas voltava sempre atrás claro!

Depois na escola obrigaram-nos a ler certas e determinadas obras com o argumento fascista de que "faz parte do programa nacional de leitura do ensino secundário proclamado pelo ministério da educação". Adorei os Maias por exemplo mas não tinha maturidade para ler a história de Anne Frank ou a Mensagem de Fernando Pessoa. Foram livros que de facto desanimaram o meu gosto pela leitura.

Mas lá continuava a ler qualquer coisa que encontrava no escritório do meu Pai ou que comprava na livraria do Fonte Nova. Acho que é muito importante para os pais que queiram estimular a mente das crianças ter livros em casa. Livros de viagens, livros grandes, livros pequenos, enciclopédias, romances, aventuras, policiais, o que fôr, mas é importante para que os filhos possam desenvolver os seus próprios gostos e quem sabe até destruir um ou outro pintando-os com lápis de cera.

Durante os últimos 10 anos, comecei a gostar de biografias personagens da história, romances de familias numerosas da América de Sul, livros sobre a história do Séc. XX policiais, romances e mesmo do grande Harry Potter!

Mas apesar de me considerar um leitor assiduo em relação à minha geração por exemplo, dentro de mim perguntava-me como é que certas pessoas conseguem ler tanto? Onde arranjem tempo ou paciência e será que já leram todos aqueles livros que têm em casa? Em Portugal quando as pessoas dizem que já leram isto ou aquilo cria-se um desconforto e desconfiância face a veracidade ou mesmo nível intelectual da pessoa. Sou apenas eu que sinto isto? Também me perguntava como é que ao domingo o Professor Marcelo Rebelo de Sousa tinha lido todos aqueles livros apenas numa semana??

Enfim, não me tornei um rato de biblioteca mas gosto de olhar para a minha mesa de cabeceira e ter em aberto a opção de à noite ler um ou mesmo vários livros e embarcar numa nova aventura. Desde que cheguei em setembro já li várias obras e só em 2012 já li "Os Irmãos Karamazov" de Dostoievski, "Crónica de uma morte anunciada" de Gabriel Garcia Marquez e o "Caso Rembrandt" de Daniel Silva, recomendo todos!!

Foi precisamente este último livro que me fez escrever esta mensagem no blog de hoje. Comecei o livro na quarta-feira passada e acabei ontem, domingo, as suas 444 páginas. Não é nenhum clássico ou obra prima mas é um livro emocionante, com muitas referências históricas e que até me fez ficar emocionado no fim com uma situação que nem sequer estava relacionada com lamechices de amor... apenas me deixei envolver! Quantos livros já vos fizeram chorar ou quase chorar? Pois é, os livros também podem ter este poder!

Muitos livros começamos a ler e parece que não entramos neles... que a coisa não anda para a frente! Pode ser que ainda não estejamos preparados para aquele livro ou que nunca vamos estar mesmo!! Não tem mal nenhum, também há filmes que não gostamos por exemplo!

O importante é não perder este hábito que tanto contribuiu para a evolução da nossa espécie!

Ler aumenta o nosso conhecimento e permite-nos viajar ao mesmo tempo que imaginamos coisas novas. É uma das artes mais acessiveis a toda a gente e pode fazer a diferença na construção de quem somos. Por isso recomendo.. leiam à noite na cama ou nos transportes públicos. Ajuda a passar o tempo e só nos enriquece! Somos nós que gerimos o nosso tempo e só depende da vontade de cada um.

A próxima vez que forem à Fnac... think about it! (ou melhor...comprem nas livrarias mais pequenas para salvar os pequenos comerciantes).

Best regards,

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Trigo em Portugal - what are we doing??

O trigo é o cereal mais produzido em todo o mundo. De acordo com dados da FAO de 2006, a produção mundial foi de 600 milhões de Toneladas, obtidos através de 220 milhões de hectares, o que dá um retorno de aproximadamente 3 toneladas por hectare. A importância deste cereal deve-se em grande parte à sua adaptabilidade agronómica a diferentes condições, facilidade de armazenamento, níveis nutricionais e a capacidade de elaborar diversos produtos através da farinha produzida dos seus grãos.

A massa que é produzida que através da farinha de trigo possui a capacidade única de levedar e fazer, entre outros produtos, o pão, que é a base da alimentação mundial desde há muitos séculos. Para além do pão podem ser feitos produtos através do trigo, tais como noodles, esparguete, bolachas, biscoitos, cereais e papas de pequeno almoço, croissants, pizzas e comida animal.

Existem dois tipos de trigo:

- Triticum Aestivum ou trigo mole,

- Triticum Durum ou trigo duro.

A caracteristica mais importante quando o trigo é colhido é o seu nível de proteina. O trigo duro é usado somente para fazer esparguete e o seu nível de proteína é bastante alto, à volta dos 15%.

O trigo mole pode ter diversos níveis de proteina e dependendo desses niveis, irão ser efectuados diferentes produtos. Se tiver um nível de proteina abaixo dos 8% é usado como comida animal. Se fôr à volta dos 9% vai para as áreas de pastelaria, bolachas e biscoitos. Para fazer pão é necessário um nivel á volta dos 12%.

Mas podemos controlar estes níveis enquanto produzimos este cereal?

A quantidade final de proteina no trigo é influenciada pelas condições de crescimento tais como a fertilidade do solo, a chuva, a temperatura e as condições de armazenamento e transporte dos grãos de cereal.

Obviamente que há variedades de trigo mole mais propensas para obter determinados níveis de proteina, mas no geral estas são afectadas pelas condições de crescimento da planta, que por sua vez também podem ser influenciadas, com um custo associado claro. Mas no geral, até colherem o trigo, os produtores ainda não sabem ao certo qual vai ser o output em termos de proteina.

É por este motivo que os diferentes países trocam entre si diferentes tipos de trigo: porque o seu clima não lhes permite atingir determinados tipos de proteina e como tal precisam de importar. O trigo inglês é muito bom para fazer bolos e especialmente bolachas (quem nunca comeu as famosas Walkers), enquanto em Itália por exemplo estão reunidas as condições perfeitas para fazer um trigo próprio para esparguete, daí esta comida ser bastante famosa na região.

Tal como outro cereal qualquer, seja ele cevada, arroz ou aveia, o trigo é produzido através de sementes que são embriões transformados para resistir a doenças e proporcionar um determinado nível de produção. Ou seja, o produtor selecciona a variedade que quer crescer, e escolhe-a segundo o seu potencial e condições do seu terreno em termos de solo, temperaturas e irrigação.

Por exemplo, um produtor pode escolher a variedade X de trigo mole e sabe que em laboratório o seu potencial são 15 toneladas por hectare. Mas para chegar a estas 15 toneladas é necessário determinada quantidade de àgua ou fertilizante que tem um custo obviamente. Ou seja, o segredo da produção deste cereal não é atingir o potencial máximo da variedade a qualquer custo, mas sim controlar a conta de exploração para obter o máximo proveito marginal. Quando o produtor pensa em colocar mais um 1 kg de fertilizante ou pesticida, ou 1 litro de água, ou mais 1 saco de sementes, deve ter em conta se esse custo lhe vai trazer mais proveitos marginais ou não. Se não trouxer não vale a pena colocar.

Nesta lógica de inputs vs outputs os países com maiores toneladas por hectare são a Inglaterra, Holanda, Bélgica e Suécia com cerca de 9, enquanto Portugal, Grécia, Espanha e Marrocos anda à volta das 2, isto devido às condições de crescimento.

De facto em Portugal as condições de crescimento parecem não estar reunidas, embora isso também não seja desculpa para a nossa fraca produtividade num cereal desta importância. É um facto que os nossos solos são na sua maioria ácidos e possuem pouca matéria orgânica. Para além disso a chuva não cai em quantidade suficiente nas alturas mais criticas para a planta. Mas para um país que pretendia ser o celeiro da Europa, penso que neste momento somos mais a vergonha da Europa.

Em 2010 produzimos cerca de 80.000 toneladas de cereais segundo dados do Eurostat. Só para se ter uma noção este número foi igual à produção do Luxemburgo no mesmo período!! Também no mesmo ano, Espanha, um país com condições agronómicas semelhantes às de Portugal, embora em algumas àreas bastante melhor, produziu 6.000.000 de toneladas, ou seja 75 vezes mais..

Em termos de consumo, precisamos de 1.100.000 toneladas por ano em Portugal, o que significa que estamos neste momento com um grau de dependência externa de mais de 90%.

Precisamos plantar mais hectares deste cereal vital para a alimentação e reduzir a nossa dependência das exportações, pois com o aumento dos preços que se têm verificado nos últimos anos, para além de se tornar mais rentavel produzir internamente, torna-se mais caro importar. Com o aumento da procura deste cereal para alimentar animais (que por sua vez vão alimentar as classes médias dos paises em desenvolvimento como a China), temos de ter um maior grau de autosuficiência pois vai haver muitos paises a guardar as colheitas para consumo interno.

Porque não há um plano interno para se produzir estas 1.100.000 toneladas dando incentivos aos produtores e garantido emprego e uma produção nacional?

Porque não existe (pelo menos não encontrei nas minhas pesquisas), uma associação nacional que estimule as boas práticas de produção, discuta estes números, exponha novas técnicas agronómicas (variedades a cultivar, nitrogénio a aplicar, etc..) e envolva ao mesmo tempo retalhistas, traders e agricultores? Será que o Pingo Doce ou a Nestlé não ficariam mais satisfeitos em comprar algo que é produzido em Portugal e onde até poderiam visitar os campos? Mas se for mais barato comprar à China qual é o incentivo?

Em conclusão, o trigo é uma fonte de comida bastante importante por causa das suas características únicas e nível de nutrientes. Portugal deve incrementar a sua produção interna de forma a tornar-se mais autosuficiente e deste modo evitar a incerteza futura dos mercados em termos de preço e produção. No entanto este é um grande desafio para o país pois parece que as condições naturais não estão reunidas.

A próxima vez que comerem um pão com queijo... think about it!!

Regards,

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Galinhas - como funciona a produção e o mercado?

A carne proveniente das aves é muito apreciada nos diversos países espalhados pelos cinco continentes. Refiro-me concretamente a galinhas, patos, perús, gansos, etc.. ou seja aquelas espécies que foram domesticadas pelo homem com vista ao aproveitamento da carne, ovos ou penas para as almofadas ou casacos Duffy!

A carne destes animais é mais barata, fácil de cozinhar, há muitas receitas para aplicar, existem também bastantes espécies e partes distintas dos animais e para além disso têm um elevado valor nutritivo com baixos níveis de gordura e colestrol associados.

Em termos de produção mundial o maior produtor são os EUA com cerca de 32% da produção total, logo seguido da China com 24% e UE com 16%. Na União Europeia a produção tem estabilizado ao longo dos últimos 40 anos e trata-se de uma àrea auto-suficiente. No entanto, em termos mundiais, a produção passou de 15 milhões de toneladas em 1960 para cerca de 70 milhões no início deste século. Este salto na produção, bastante impulsionado pela India e China, foi superior às taxas de crescimento verificadas na carne de porco e vaca. Na Europa os maiores produtores são o França, o Reino Unido e Itália, contabilizando entre si mais de 50% da produção Europeia.

A produção de ovos ou carne de galinha está normalmente associada a sistemas bastantes intensivos, à semelhança do porco. São àreas não subsidiadas, o que traz à palavra eficiência um significado ainda mais importante. Trata-se de um mercado tão eficiente que normalmente a cadeia de valor está debaixo da alçada de uma só organização: desde o nascimento, criação, abate, processamento, embalamento dos animais passando pela criação de marcas, estratégia de marketing e negociação com os retalhistas, há muitas empresas que tratam de tudo, o que não é normal nos mercados actuais, pois com a crescente especialização e globalização há àreas que compesa mais serem operadas por terceiros, muitas vezes a milhares de kilometros.

Mas o que são estes sistemas intensivos de produção?

São sistemas onde se procura maximizar a rentabilidade do animal. Tratam-se de instalações indoor, onde através do agrupamento dos animais pela fase de produção (idade, peso, gravidez, regime alimentar), é possível uma gestão mais eficaz da alimentação, cuidados veterinários e transporte dos animais. Normalmente os animais encontram-se em gaiolas se estivermos a falar de produção de ovos, ou então se fôr produção de carne, estamos a falar de àreas circunscritas onde se encontram centenas de animais em contacto uns com os outros mas onde tem de haver um minimo de espaço por animal, é como que uma jaula mas maior. Na cabeça do consumidor estes regimes intensivos estão mais associados aos porcos e às galinhas do que às vacas e às ovelhas. Também na cabeça do consumidor, tais aglomerados de animais, são significado de problemas de bem estar para os animais e facilitam a propagação de doenças, como por exemplo a recente gripe das aves, que na Ásia ainda não está totalmente erradicada.

Nestes sistemas intensivos, e isto funciona para qualquer espécie de carne que consumimos, o objectivo é que o animal cresça o mais rapidamente possível para que tenha o mínimo de custos associados. Tal como nas outras espécies animais que já vimos neste blog, a alimentação é sempre o custo mais elevado, portanto quanto menos tempo eles permanecerem vivos, mais barato será o custo de produção. Nas galinhas têm-se feito avanços monumentais em termos da eficiência.

Através de uma alimentação baseada em cereais e concentrados e através do progresso no conhecimento genético dos animais, é possivel hoje em dia mandar-se uma galinha para o matadouro 34 dias após o seu nascimento. Em 1950 falavamos de 85 dias. Ou seja, para uma galinha atingir os 1,80 kgs necessários para estar em conformidade com os gostos do consumidor e exigências dos retalhistas, é necessário pouco mais que um mês...

Até na produção de ovos, os avanços foram extraordinários. Em 1960, a produção nestes sistemas intensivos, era de 208 ovos por galinha/ano. Hoje em dia, já estamos a falar de 311 ovos por galinha/ano, o que significa quase 1 ovo por dia! E em termos de inputs a gestão também evoluiu bastante: há 50 anos atrás eram necessários 3,4 kgs de comida para fazer um ovo, sendo que hoje em dia este valor baixou para 2,2kgs.

Mas voltando ao bem estar dos animais, o que está a ser feito nesta àrea?

A nova legislação da UE para os sistemas intensivos tem estado bastante em foco pois em 2012 entrou em vigor uma nova lei que obriga os produtores de ovos a substituirem as antigas gaiolas de produção de ovos, que tinham 450 cm2 (o espaço de uma folha A4), por gaiolas maiores com 750 cm2, onde exista espaço para um ninho e onde as galinhas possam de certa forma expressar melhor os seus comportamentos naturais. Muitos países ainda não adoptaram estas novas medidas e poderão ser penalizados por isso, Portugal é um exemplo. Alguns produtores serão forçados a abandonar o negócio porque a aquisição de novos equipamentos não será comportável do ponto de vista financeiro. Isto também poderá trazer penalizações em termos de competitividade nas exportações europeias, pois nos EUA por exemplo, continuam a existir as antigas gaiolas e cerca de 80 a 90% dos animais habitam neste sistema.

Mas será isto suficiente para o bem estar dos animais?

As associações de defesa dos animais encaram estas mudanças como pura demagogia. Aumentar o espaço em 300 cm2 não é de perto nem de longe suficiente para garantir a saúde e bem estar dos animais.

Mas o mercado tem estado atento a este facto, e prova disso é o sucesso do segmento free range. Tratam-se de galinhas que têm uma capoeira e acesso livre aos campos. No UK os ovos deste segmento já atingiram uma quota de mercado de 50%. Trata-se de uma maneira de aumentar o welfare dos animais e muitos supermercados como o Sainsburys e Marks & Spencer já só vendem ovos deste género. O preço a pagar é no entanto alto. Com este sistema chamado extensivo (ao invés do intensivo), os animais crescem de forma mais lenta, tendo por isso mais custos de alimentação e para além disso a sua gestão diária exige mais recursos humanos. Todos estes custos são passados para o consumidor que paga um premium por estes produtos. Em consulta ao site do Continente, encontrei diferenças por Kilo que chegam aos 2,5 € entre o frango de campo e o convencional. Muitos consumidores afirmarão que o frango free range é com certeza mais saboroso mas será que as suas carteiras comportam este esforço?

Muitos produtores contestam esta forma de criar as galinhas. Alguns afirmam que é um desperdicio de espaço que podia estar a ser semeado e alguns estudos até já demonstraram que em muitos casos as galinhas passam a maior parte do tempo dentro das capoeiras. De qualquer maneira, este é claramente um caso em que os produtores vão ter que adaptar os standarts da indústria aos requisitos dos mercados e dos retalhistas, pois o free range é um segmento em crescimento, precisamente devido à maior atenção por parte do consumidor no bem estar dos animais.

Em conclusão, mais uma vez o mercado mostrou-nos que o bem estar dos animais não é negociável! O segmento das aves está a crescer na alimentação mundial e é necessário aprender a melhorar o bem estar dos mesmos. Tem que se arranjar formas de baixar os custos no free range para que não haja uma grande penalização na carteira dos consumidores. Desta forma, haverá mais produtores interessados em entrar no negócio e de forma mais sustentável.

Da próxima vez que comerem um ovo estrelado...think about it!

Regards,

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Porco - um animal fascinante... também do ponto de vista económico!

A carne de porco, ou outras partes deste animal fascinante, é uma das grandes bases da alimentação mundial. Aqui no Royal Agricultural College possuimos uma quinta com 320 porcos onde temos o privilégio de aprender tudo sobre este animal desde a sua reprodução, passando pela alimentação até ao seu bem estar em termos de alojamento.

Segundo o Eurostat, a produção de carne em termos mundiais é liderada pelo porco com 42% do total de volume produzido, seguido da vaca com 27% e depois a galinha com 25%. Em termos de tendências observam-se cada vez menos quintas a criar porcos, mas com um número de animais cada vez maior. Com o aumento do consumo a nível mundial a competitividade também aumentou e só sobrevivem os produtores que conseguem encontrar escalas interessantes e custos de produção equilibrados.

A Europa é a região do mundo que consome mais kilos de porco por habitante com cerca de 45,1 kgs/ano. Em termos comparativos cada Chinês consome em média 29,2 kgs, um Norte Americano 31,3 kgs e um Japonês 16,7. Os nossos irmãos Brasileiros consomem "apenas" 9,5 kgs de carne de porco por habitante, o que também se deve à dificuldade em criar porcos neste país devido às altas temperaturas.

Portugal está dentro da média do consumo Europeia com aproximadamente 44 kgs por pessoa/ano, mas ao contrário de muitos países Europeus que são auto-suficientes nesta àrea, produzimos 87% do que consumimos, tendo que ir buscar o resto a outros mercados. Em termos absolutos isto significa uma produção de aproximadamente 375.000 toneladas ano, ao passo que Espanha por exemplo produz 3.409.000 toneladas ano tendo um grau de auto-suficiência de 106% (mas consomem mais por habitante que em Portugal, quase o dobro).

Tal como os bovinos, trata-se de uma espécie bastante complementar com a produção de cereais. Um produtor que tenha porcos e cereais consegue retirar palha e alimentação para a gestão diária dos animais ao mesmo tempo que produz estrume para enriquecer os campos. Isto é uma das maneiras mais eficazes de gerir uma vara de porcos pois permite elevadas poupanças de custos. Basta dizer que a alimentação nos porcos é feita à base de cereais e que este custo representa entre 60% a 80% do custo total de criar um porco.

A criação de porcos tem então que seguir parâmetros e procedimentos eficientes para que se consiga fazer dinheiro do negócio, ou seja ir de encontro aos objectivos comerciais ou financeiros. Esta questão já foi mencionada neste blog mas nunca deverá ser deixada de lado: a eficiência (utilização de recursos) é fundamental na agricultura ou na pecuária tal como em qualquer negócio e deve sempre caminhar lado a lado com a sustentabilidade do animal e dos recursos utilizados tais como os solo, àgua ou alimentação.

Como se cria então uma vara de porcos de maneira eficiente para se poder ter lucro?

Para responder a esta pergunta seria necessário um livro inteiro obviamente, mas serão aqui relatados alguns aspectos fundamentais que podem também variar consoante a região, raça do porco, se é uma produção indoor ou outdoor, etc..

As fêmeas podem começar a engravidar aos 8 meses e o período gravidez dura normalmente 115 dias, que é o mesmo que dizer 3 meses, 3 semanas e 3 dias, muito fácil de decorar! Os machos podem começar a produzir filhos a partir dos 9 meses. O número médio de leitões por ninhada é 10 e a partir do momento em que um filho escolhe uma teta da mãe nunca mais muda. Costuma-se dizer que os porcos mais fortes e que crescem mais depressa são aqueles que ficam com a teta que está localizada mais perto da cabeça da mãe.

Os animais que são seleccionados para reprodução funcionam a partir daqui como uma autêntica fábrica. A partir do momento em que dão à luz, as fêmeas amamentam os filhos durante um período de 21 dias. A seguir a este período, os filhos são separados da mãe e o objectivo é que ela engravide o mais rapidamente possivel, normalmente consegue-se em 10 dias. Para isso tem que entrar no "ciclo" de novo. Este ciclo que acontece de 21 em 21 dias em média, tem a duração de 3 dias e representa o período em que a fêmea tem os óvulos prontos para reprodução. Para estimular este processo normalmente coloca-se um macho reprodutor perto de uma fêmea, mas mesmo assim separados por uma grade ou portão. Depois quando ela está pronta utilizam-se métodos naturais de reprodução ou a inseminação artificial, muito popular nos porcos.

A partir deste momento, o processo repete-se, normalmente até um máximo de 7 ninhadas, sendo que as fêmeas que conseguem atingir este número de ninhadas são as campeãs da fertilidade! Ou seja a partir dos 8 meses (240 dias), engravidam. Depois ficam grávidas 115 dias. Depois amamentam 21 dias e depois ficam grávidas de novo em 10 dias repetindo todo o processo desde o início. A razão porque já não se usa mais estas fêmeas para dar à luz a partir da 7ª ninhada é porque o número de filhos por ninhada começa a diminuir a partir da 5ª ninhada. Estas fêmeas vão depois para a produção de carne, normalmente salsichas, pois já é um animal mais velho, e como tal com menos qualidade na carne. Os macho deixam de reproduzir por volta dos 4 anos e têm o mesmo destino das fêmeas.

Fazendo uma conta básica, uma fêmea consegue então dar à luz uma média de 25 filhos por ano = (365 dias/ (115 dias de gravidez + 21 dias de amamentação + 10 dias para voltar ao ciclo e engravidar)) x 10 (número médio de filhos). É assim que se fazem as contas num negócio de porcos!!

Estes porcos são depois alimentados e vão para os matadouros com a idade de 6 meses, quando atingem um peso total à volta de 65 kilos, sendo que deste peso cerca de 70% da carcaça é carne.

Considerando o preço actual da carne de porco num matadouro de porcos no Reino Unido, 1,5 £ por kilo, o rendimento anual que uma fêmea pode dar é o seguinte:

25 leitões x 65 kilos x 70% carne x 1,5 £ = 1706 £. Se tivermos 100 fêmeas já estamos a falar de 170.000 £ o que é bastante interessante. Em termos de custos, estes variam consoante o preço dos cereais para alimentar os animais, etc.. mas aos preços de hoje em dia e com uma estrutura minima de 100 fêmeas, os produtores no Reino Unido estão a trabalhar com uma margem grossa de 10% (excluindo custos fixos).

Com a procura de carne a aumentar a nivel mundial estes preços podem tornar-se ainda mais atractivos. Para além da carne existem muitas outras maneiras de rentabilizar este animal. As partes que não são utilizadas para carne como os ossos, os orgãos, o sangue, a gordura, a pele ou o pelo já são são utilizadas no fabrico de shampoos, velas, balas, pinceis, gelados, fertilizantes, insulina, iogurtes, electricidade, comida animal, cosméticos, etc... Em alguns destes produtos são utilizados como ingredientes principais, embora noutros só participem no processo.

Em conclusão, a carne de porco está a tornar-se num negócio mais actrativo como o demonstra a produção mundial. Um negócio gerido de forma eficiente pode dar lucros ao seu produtor e não é uma industria que tenha subsidios como muitas outras. No entanto devemos ter sempre em atenção aquilo que tem sido a máxima da produção animal nos últimos anos: para se maximizar a qualidade da carne deve-se maximizar o bem estar do mesmo, e isto não é negociável!

Da próxima vez que comerem uma costoleta ou virem alguém que não toma banho... Think about it!!

Regards,

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Svalbard - A nova Arca de Noé

Depois de uma pausa motivada pelos primeiros trabalhos e pelas férias de natal o Blog dos Bosques volta a atacar!

Foi maravilhoso voltar a rever os amigos e a familia em Portugal. Apesar de me sentir um bocado deslocado da vida normal e apesar de não ter carro nem casa fixos.. a nossa pátria é sempre o local onde nos sentimos como peixe na água! A comida, os cheiros e os hábitos com que crescemos fazem parte do nosso organismo e da nossa identidade.... e estar em Portugal foi como voltar ao meu habitat natural.

Este sentimento de pertença também pode ser transportado para a agricultura: há plantas e animais que se dão bem em diversos locais mas é no sitio onde primeiro se desenvolveram e segundo Darwin, lutaram pela existência, que se vão dar sempre melhor!

Muitas espécies de animais e plantas viajaram de país para país e de continente para continente transportadas pelo homem. Muitas delas já se encontram em vias de extinção ou desapareceram dos seus locais de origem, mais uma vez devido à acção do homem.

Nos últimos 50 anos e devido a muitos factores como o crescimento de população, o aquecimento global, a destruição das florestas tropicais, o aumento do consumo de combustiveis fósseis, entre outros, extinguiram-se cerca de 300.000 espécies dos 10 milhões que se calcula existirem no planeta. Todos os anos desaparecem entre 3.000 a 30.000 espécies, um recorde sem precedentes nos últimos 65 milhões de anos.

Segundo James Howard Kunstler, no seu livro "O Fim do Petróleo", dentro de 100 anos ter-se-ão perdido entre um a dois terços de todas as aves, animais e plantas do planeta! Esta perda de bio-diversidade pode ter consequências nefastas para a espécie humana, bem piores que uma crise financeira... mas parece que por enquanto caminhamos de forma cega para um precipicio, sem que as lições aprendidas em muitas alturas da história sirvam para alguma coisa.

No entanto, parece que algumas histórias ainda nos vão ficando na cabeça e quem não se lembra da Arca da Noé? Avisado previamente por Deus de um diluvio que aniquiliaria a vida na terra, Noé reuniu numa arca um macho e uma fêmea de cada espécie para que a sobrevivência das mesmas ficasse garantida.

Em pleno Século XXI, uma experiência semelhante está a ser conduzida em Svalbard, na Noruega, onde estão a ser guardadas sementes em larga escala para prevenir uma eventual catástrofe ambiental ou climatérica.

Trata-se de um silo gigante cujo objectivo é salvaguardar as espécies de plantas que servem como alimento às populações dos mais diversos países. O silo de Svalbard preserva cerca 90% das sementes conhecidas no mundo inteiro e foram doadas pelos países produtores.

O silo foi construído no Monte Spitsein, em Svalbard e é uma estrutura inteiramente subterrânea. Trata-se de um arquipélago situado 1.000 km a norte da Noruega, e foi escolhido por ser um lugar a salvo das possíveis alterações climatéricas causadas pelo aquecimento global e/ou quaisquer outras causas.


Figura 1 - Silo de Sementes de Svalbard.

O silo tem capacidade para abrigar 2,5 biliões de sementes, ou seja aproximadamente 500 sementes de 4,5 milhões de espécies. As câmaras onde estão guardadas as sementes estão a uma temperatura de -18 °C, e se por alguma razão o sistema de refrigeração falhar, o montante de terra e pedras congeladas que naturalmente cobre o silo, o chamado permafrost, mantém as sementes entre -4 e -6 °C.

Em conclusão, nos últimos 200 anos, a expansão da população humana que passou de mil para 7 mil milhões, tem sido muitas vezes feita sem escrúpulos e à custa da natureza. A extinção de espécies animais e vegetais representa a perda de bio-diversidade inexplorada pelo homem. Estas espécies que se estão a perder, até poderiam representar uma fonte de novos recursos energéticos ou de cura para doenças humanas. A experiência de Svalbard é bem vinda pois garante a segurança das espécies vegetais em caso de catástrofe. Mais experiências semelhantes serão bem vindas!

Esperemos nunca vir a precisar deste silo... isso significa que algo correu mal.... think about it!

Best regards,

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Óleo - Para que te quero!!

O óleo é hoje em dia uma das commodities mais procuradas a nível mundial muito devido ao facto de poder ser usado para múltiplas funções: bio-diesel, óleo de cozinha, shampoos, gel de banho, fins industriais etc..

O seu preço está directamente ligado ao preço do petróleo, pois funciona como produto substituto para a produção de combustiveis. Com o aumento da escassez dos combustiveis fósseis e a consequente subida dos preços, esta tem sido uma colheita cada vez adoptada pelos agricultores nas suas quintas. No Reino Unido por exemplo, em apenas 20 anos as colheitas destinadas à produção de óleo já ocupam o segundo lugar com cerca de 600.000 hectares de terra, logo atrás do trigo!

Mas em termos alimentares o seu sucesso caminha lado a lado com o sucesso das batatas fritas e com o facto de as gorduras animais como a banha de porco terem passado de moda e serem consideradas nocivas para a saúde. Outra gordura de excelência é obviamente o azeite mas devido ao seu preço e escassez em algumas regiões do mundo, é essencialmente usado como tempero para muitos tipos de comida.

Durante as recentes visitas do meu Pai e do meu amigo Miguel Cal Ferreira demos alguns passeios no campo e uma das colheitas que mais captou a atenção e curiosidade destes visitantes atentos foi a Oilseed Rape. É principalmente nesta colheita que me vou focar mas também serão abordadas outras colheitas que permitem extrair óleo.

Em termos mundiais, os hectares destinados à produção de culturas de onde se extrai óleo, são dominados pelos grãos de soja. Dados de 2009 revelam que esta colheita ocupa 53% do total das plantações, 15% vem da Oilseed Rape, 10% da linhaça, 9% do amendoim, 8% de girassóis e 3% de palmeiras, sendo os restantes 1% de diversas origens como o recente óleo de jatropha que também será abordado neste texto.

O óleo também pode ser feito através do milho, mas esta origem não conta para as contas mencionadas acima pois o seu uso é principalmente para cereais. O óleo de palma, apesar de ocupar apenas 3% em termos de hectares é o óleo mais produzido no mundo com cerca de 33% do total da produção, logo seguido do óleo de soja com 30%.

Para os mais atentos, surge a questão, mas se a planta da soja é tão rica em proteinas e os vegetarianos a usam para o Tofu por exemplo, como podemos fazer óleo da mesma, sabendo que este é constituido por 100% gordura? A soja é de facto a colheita vegetal que produz mais proteinas por hectare e é também considerada a fonte alimentar mais rica em proteinas pois contém o maior número de aminoácidos essenciais para a nutrição humana. Mas estes grãos de soja são tão versáteis que contêm então 40% de proteinas e 20% de óleo e através do processamento e transformação pode-se extrair ambas as "substâncias".

O mix de outras colheitas em termos de proteinas/óleo é distinto. As sementes do girassol por exemplo têm 44% de óleo mas apenas 28% de proteina. As sementes da oilseed rape tem 42% de óleo e 35% de proteinas. A palmeira não produz proteinas.

Em termos nutricionais, o óleo é uma fonte importante de nutrientes benéficos para a saúde nomeadamente ácidos gordos ômega 3, ômega 6 ou mesmo ômega 9 consoante as misturas de sementes que se façam. O ômega auxilia na diminuição do colestrol mau ao mesmo tempo que favorece o desenvolvimento de colestrol bom. Para além disso é um bom anti-depressivo, ajuda na circulação e ajuda a combater determinados tipos de cancro. Ciêntistas na Gronelândia observaram uma incidência particularmente baixa de doenças cardiovasculares entre os esquimós, apesar da sua alimentação conter alto teor de gordura. O motivo é a sua alimentação que consiste em peixes ricos em ácidos gordos ômega 3.

Focando então na Oilseed Rape. O que é esta planta? A sua designação em Latim é Brassica Napus. Segundo uma pesquisa na internet o seu nome em Português é Colza.

Para além de ser uma planta cada vez mais atractiva em termos de mercado, em termos agronómicos também se tornou um sucesso pois é uma excelente cultura de "quebra". Na agricultura a rotação de culturas é essencial para enriquecer os solos e acabar com determinadas pragas num certo terreno. Numa cultura intensiva de cereais por exemplo, os agricultores faziam rotação entre os diversos tipos de cereais e muitas vezes isto esgotava os solos e não permitia a extinção e o tratamento de determinadas pragas. Com o aumento da rentabilidade desta planta oleaginosa, já se torna rentável não produzir apenas cereais e contribui-se para o melhoramento dos solos e tratamento de doenças. Para além disso quando se volta a plantar os cereais consegue-se mais toneladas por Hectare!


Fig 1- Fases de crescimento da Colza.


Fig 2 - Fase 4 na Primavera, quando a planta já está em flor e os campos ficam amarelos.

Existem diferentes variedades deste tipo de planta que dão origem a diferentes tipos de óleo. Consoante a quantidade de ácido erúcico nas sementes, o óleo é usado para fins alimentares, combustiveis ou fins industriais. Quanto menor a quantidade deste ácido, melhor para a alimentação humana. As variedades mais comuns são o Double Low (00) ou o HOLL ( High Oleic + Low Linolenic), que é usado actualmente pelo Macdonald's para fritar batatas e nuggets, devido ao facto de poder ser usado mais vezes e manter as suas caratcteristicas intactas.

Em termos de plantação propriamente dita, as sementes deverão ser colocadas 2 cm debaixo da terra e deverão ser cultivadas entre agosto e setembro. A sua colheita faz-se em Julho do ano seguinte e é muito importante que as sementes não tenham um nível de humidade superior a 9%. Muitas vezes tem que se secar as colheitas para atingir o valor ideal. O número de sementes a colocar é de 80 a 120 por metro quadrado. Precisa de bastante fertilizante, nomeadamente Nitrogénio. O montante depende da quantidade deste que já se encontra no solo mas em média serão necessários entre 150-200 kgs, metade a ser aplicado no final de Fevereiro e metade no inicio de Abril.

Duas das variedades de óleo mais badaladas actualemente são o óleo de palma e de jatropha. Estes dois tipos de óleo, vêm do fruto de àrvores plantadas em regiões tropicais, sendo que o primeiro vem das palmeiras como o nome indica. Sendo um tipo de óleo muito eficiente em termos de plantação, ou seja dá bastantes toneladas por hectare, grandes polémicas têm surgido devido à destruição massiva de florestas tropicais. Os maiores produtores mundiais são a Indonésia e a Malásia, logo seguido da região da América do Sul. Grandes multinacionais como a Unilever tem milhares de hectares contratados nestas zonas para produzir o óleo de palma essencial para a produção de cosméticos, além de financiarem a abertura de estradas e de fábricas de transformação locais. É necessário alertar os consumidores para estas questões e obrigar estas empresas a práticas mais sustentáveis.

Aqui surge mais uma vez o dilema... A China Airlines por exemplo já usa óleo de palma nos seus combustiveis e orgulha-se do facto de não usar combustiveis fósseis para levantar os seus aviões e ser assim mais amiga do ambiente. Mas a outra face revela que para tal está a destruir as florestas tropicais que são essenciais para o equilibrio dos ecosistemas, produção de água através da chuva e muito importante: estamos a destruir organismos nas florestas que ainda não foram explorados e poderiam contribuir para medicamentos ou novas formas de alimentação humana.

Em conclusão, o óleo já é uma das indústrias mais importantes a nível mundial, principalmente no campo alimentar, produção de energia, medicamentos e artigos de higiene pessoal e caseira. Há várias formas de obter o óleo mas deveria haver mais preocupações ambientais sobretudo nas zonas tropicais onde se produz óleo de palma sem escrúpulos. Segundo um estudo da Unilever realizado em 2011 a procura dos diferentes tipos de óleo em 2008 foi de 38 milhões de toneladas, em 2020 será de 44 milhões e em 2050 de 80 milhões!! Como vamos suportar esta procura sabendo que precisamos da terra para alimentar uma população em crescimento?

Think about it!!

Best regards,

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Bifes de Vaca - com batatas fritas de preferência!

A carne de vaca faz parte da dieta regular do mundo ocidental desde que esta foi domesticada no período neólítico, há cerca de 10.000 anos atrás. O que faz  uma carne ser boa está directamente relacionado com a espécie da vaca que estamos a falar, a alimentação que esta teve, a quantidade de gordura, o tratamento que teve no matadouro, as condições de refrigeração a que a carcaça do animal esteve sujeita, entre muitas outras.

O estudo de todas as condições que influenciam a qualidade da carne tem sido aperfeiçoado numa óptica de produção, geração de valor acrescentado e rentabilização do lucro. Tenho sempre um bocado de receio de misturar as expressões "maximização do lucro" e "qualidade" quando estamos a falar de animais e plantas.

No entanto, nos últimos anos, o caminho tem sido no sentido de proporcionar aos animais o máximo bem estar possivel desde o momento em que este é apenas um feto até ao momento em que está no prato do consumidor!

Nos mercados mais evoluidos, ou mais ocidentalizados digamos, a legislação condena más condições de manuseamento ou higiene dos animais, falta de refrigeração nos camiões ou supermercados, etc... tudo numa óptica de proteger os animais e os consumidores. Basta referir para este efeito a nossa tão badalada ASAE, que quer queiramos quer não, já detectou situações que prejudicavam bastante os consumidores. Estas garantias de qualidade na produção são um dos principios essenciais para se poder exportar produtos também. Nenhum país que queira entrar com os seus produtos nos EUA, França, Espanha, Reino Unido, etc... pode ambicionar fazê-lo sem boas práticas de alojamento, higiene, manutenção, abate e transporte.

Para além disso, hoje em dia todos os produtos são registados e seguidos desde o produtor até ao supermercado mesmo que este fique do outro lado do mundo, por isso o compromisso com a qualidade é fundamental para não arruinar o negócio!

Mas o que é um bife com qualidade?

Escusado será dizer que a qualidade varia consoante o gosto de cada um. Aqui entramos mais uma vez no chavão: o consumidor é rei!! Os produtores e todos os players de mercado sejam eles restaurantes, talhos ou supermercados têm de ouvir os gostos do consumidor, segmentar a oferta de mercado e disponibilizar um conjunto de produtos e sortido a determinado preço que permitam satisfazer as necessidades do consumidor (frase aprendida na Universidade Católica Portuguesa).

Julgo que há um factor comum na definição de qualidade para todos nós: a garantia de satisfação equivalente quando repetimos uma experiência. Ou seja sabermos que aquela carne que estamos a adquirir vai corresponder a determinada experiência gastronómica e equivale a um determinado conjunto de nutrientes e bem estar para o nosso corpo.

Porque vamos à Portugália? Ou aos Bifes do Império ou Café de São Bento? Porque sabemos que existe uma qualidade associada aquele produto e estamos dispostos a pagar um preço premium para a ter. E se não estiver bom podemos sempre mandar para trás!!

Mas e no supermercado? Como detectamos um bife de qualidade?

A verdade é que quando compramos uma caixa cons uns bifes crus lá dentro, não fazemos a minima ideia ao que aquilo vai saber!!

Olhamos em primeiro lugar para o aspecto da carne. Uma carne com uma boa cor é essencial para abrir o apetite e conduzir ao acto de compra. A cor depende da idade do animal, quanto mais novo mais clara será a carne. Os animais que são destinados ao abate têm normalmente à volta de 20 meses. É nesta altura que atingem o seu auge em termos de constituição fisica e saúde. É como um ser humano entre os 16 e 18 anos. Nesta altura as proporções entre ossos, musculos e gordura é a ideal, ou seja o animal atinge o plateaux da sua existência e as rentabilidades são as mais altas possíveis.

Outro dos factores muito importantes que influencia a cor da carne é o seu nível de PH. Quando uma vaca está viva ou mesmo um ser humano o PH dos seus músculos é neutro, ou seja apresenta um valor de 7. Nos músculos existe uma molécula chamada Glicogénio. Trata-se de uma das principais fontes de energia dos nossos músculos, ajudando à coesão entre células e também no fortalecimento das articulações e ossos. Esta molécula é constituida por átomos de Carbono, Hidrogénio e Oxigénio. Ora quando fazemos um grande esforço ao qual não estamos habituados retiramos o Oxigénio ao Glicogénio nos músculos e este transforma-se em ácido lácteo. Todos já sentimos a sensação de musculos doridos depois de um esforço a que não estamos habituados.

Já foi aqui referido que o bem estar dos animais é muito importante para a qualidade da sua carne e esta é uma das principais razões: na altura de abater o animal, se for causado um stress excessivo no seu transporte, ou nas horas antes do abate pelas condições de alojamento ou actos violentos na pesagem  ou ainda outros factores a que ele não esteja habituado, todo o o trabalho que se teve até aquele momento em termos de "construir" um animal de qualidade vai ser desperdiçado!

Isto porque um animal em stress vai ter de usar as suas reservas de Glicogénio para combater o esforço a que foi sujeito!

Para uma carne ter qualidade é necessário que quando o animal morra, ou seja quando o seu coração e cérebro parem, ainda hajam suficientes reservas de Glicogénio nos seus músculos para que desta forma e através da sua respiração anaeróbica possam baixar o PH para 5,5. Ou seja a carne boa para consumo humano é ácida e se o animal não tiver Gliocogénio nos músculos quando é abatido este processo não de acidez não se concretiza!! A acidez torna a carne mais tenra e evita a formação de bactérias que gostam do PH 7.

Uma carne mais avermelhada e já a tender para o castanho, pode significar entre outros motivos, (como já foi mencionado acima ser de um animal mais velho), que o animal não tenha sido bem tratado e não tenha um bom nível de acidez, ou seja propicio à instalação de bactérias! Atenção à aquisição destas carnes!

O frio e refrigeração são fundamentais na gestão da qualidade da carne precisamente porque ajudam o PH a descer e a manter-se nos níveis ácidos necessários para consumo. Se deixarmos a carne exposta ao ar ela vai ficar castanha e o seu PH sobe ficando apetecivel para os mosquitos e bactérias. O modo como cozinhamos a carne na nossa cozinha também pode destruir a qualidade de uma carne. A capacidade de reter àgua numa carne é muito importante e se esta se libertar pode entrar em Hidrólise e destruir as moléculas que a constituem assim como as suas proteinas. A refrigeração é importante no supermercado mas também nas nossas casas. Quando pomos carne no frigorifico devemos colocá-la o mais abaixo possivel mas longe da fruta ou legumes.

Uma carne com um bom nível de gordura também é importante para a definição da compra. A gordura traz o sabor à carne, dai que nos EUA por exemplo, as carcaças de bovino mais valiosas são aquelas que têm mais gordura. Tudo depende dos gostos mais uma vez. A carne de vaca pode ser feita através de vitelas, vitelos castrados ou não castrados. Tal como nos seres humanos, as fêmeas também têm mais tendência para acumular gordura enquanto os machos tendem a acumular musculo, consoante o exercicio e a alimentação claro. Mas a verdade é que cada consumidor procura sempre um equilibrio entre carne, gordura e sabor mas poderá optar por comer vitelos ou vitelas para procurar esse tal equilibrio no que come.

Toda esta informação mencionada até agora deverá estar contida nas etiquetas das embalagens de carne ou nas placas do talho. Outra informação muito procurada hoje em dia é a origem, que também deverá estar discrminada na caixa. No entanto,e à semelhança de muitos outros produtos, se o processamento ou a embalagem for efectuada em Portugal por exemplo, isso já garante ao produto um código de barras nacional 560, embora a carne possa vir da América do Sul. É importante vir discriminado em que país viveu o animal!

Hoje em dia estudam-se novas técnicas para melhorar a qualidade da carne. Há vacas no Japão que são massajadas (Kobe), há produtores que em vez de pendurarem a carcaça pela pata (onde está o calcanhar de aquiles), penduram pelo rabo afirmando que deste modo os musculos das patas e coxas não ficam tão "esticados" e têm uma qualidade superior. Também já existem scanners que determinam e verificam ao detalhe as constituições das carcaças em termos de gordura, ossos e músculos permitindo aos distribuidores comprar carne com mais confiança. Outra das grandes tendências é a carne orgânica, que basicamente se caracteriza pelos animais comerem apenas rações orgânicas (que não foram sujeitas a fertlizantes e pesticidas) e não poderem levar antibióticos até x dias antes de serem abatidos. Este tipo de carne até poderá à partida ter um um aspecto mais magro, mas é mais saudável do ponto de vista dos nutrientes, sendo por isso mais cara também.

Em conclusão a carne de vaca quer-se com qualidade mas devemos estar atentos à sua cor, textura, gordura, se é tenrinha e olhar muito bem para as etiquetas das embalagens. Como já foi dito neste blog as características da qualidade da carne encontram-se localizadas nos genes dos animais dentro dos cromossomas. Se dermos aos animais um ambiente sem stress, com bons cuidados e nutrição vamos estar a maximizar a qualidade, (não interferindo com o funcionamento desses genes) e também o lucro. É uma situação win-win pois representa um compromisso sério com a qualidade, uma permissa fundamental em qualquer negócio!

Peço desculpa aos vegetarianos por tanta informação sobre bifes!

A próxima vez que forem ao Pingo Doce comprar carne... Think about it!

Best Regards,