quarta-feira, 21 de maio de 2014

O sub-mundo da Agricultura em Portugal.

A integração num meio novo não é coisa fácil.

Quando chegamos a uma escola nova. A um emprego. Ou até quando nos mudamos para um prédio ou bairro novo.

Há sempre um período de descobrimento e adaptação. Um período em que andamos às apalpadelas a tentar perceber por que linhas se cosem as coisas. Uma entrada low profile é sempre aconselhada!

No caso da Agricultura não é diferente.

E apesar de ser um meio conservador, não tenho grandes razões de queixa. Tenho conhecido pessoas que me têm recebido bem e saúdam a chegada de gente jovem ao meio. Desde proprietários a tractoristas, passando por administrativos e jornalistas.

As pessoas são um pouco desconfiadas ao início e até há muitos velhos do Restelo! Mas no geral, são amáveis e simpáticas, o que também é reflexo do modo de vida menos stressante que vivem no campo. O ar livre faz bem às pessoas!

Mas apesar disso há também alguns problemas sociais como o isolamento ou o alcoolismo. Há muitos agricultores solitários por esse país fora, que por habitarem em regiões distantes ou semi-abandonadas, têm pouco contacto com outras pessoas. Os eventos sociais e culturais não abundam por estas bandas. O pico do ano são normalmente as festas de verão!

E quantas vezes não vi já por esse Alentejo fora, grupos de senhores de bigode a beberem o seu vinho tinto ou o café com cheirinho logo às 8 da manhã?


Mas pronto não se pode julgar ou avaliar. Em todo o lado, seja na cidade ou campo, há problemas e modos de vida diferentes!

Aquilo que tem sido de facto mais difícil é a busca de uma propriedade.

Há terra no mercado (mas nem toda considerada boa terra...). Há até preços acessíveis. Há oferta e procura. Mas também há muitas coisas estranhas a acontecer... aquilo que considero o sub-mundo da agricultura!

Com excepção de uma ou duas pessoas realmente sérias e integras, tenho apanhado de tudo nestas 18 propriedades que já visitei.

Quando faço o primeiro contacto a propriedade parece um vale encantado. Há água para dar e vender. O solo é o melhor. A localização é excelente. Há milhares de arrobas de cortiça.

Quando se chega ao local começa perceber-se como as coisas realmente são. Há propriedades hipotecadas. Há sociedades duvidosas a explorar as mesmas. A água não é assim tanta. A cortiça não é de boa qualidade e nem na quantidade que vinha no anúncio. Muitas nem electricidade têm!

E já para não falar nas pessoas que tenho encontrado. No outro dia visitei uma herdade, em que uma em que uma pessoa dizia que custava X e outra que contactei um dia depois dizia que custava o dobro. Ganância?

Outra que também visitei, o senhor mostrou-me a propriedade e enquanto andávamos a pé disse-me: " Você tem daqui até ao carro para me fazer uma proposta!" Quando eu disse que isso era impossível ficou chateado comigo...

Ali na zona do Cercal, visitei algumas propriedades e duas pessoas diferentes em dois locais diferentes disseram-me que o Figo já tinha andado ali a ver aquelas herdades para fazer campos de golfe... Será que pensam que isso valoriza a terra?

Outra que visitei, o senhor esqueceu-se de trazer a chave do monte. Isto era uma questão fundamental para mim e quando mostrei o meu desagrado por se ter esquecido da chave ele começou a bater às portas e janelas e ver se estava alguém lá dentro. Isto num sitio completamente abandonado... estaria à espera que um rato ou um fantasma lhe abrisse a porta?

Outra propriedade em que mostrei interesse pelo telefone, o proprietário recusou-se a dizer-me o preço. Disse-me ele "quando digo o preço tenho que olhar para os olhos das pessoas!"... e lá fui eu conhecê-lo. Depois não houve seguimento.

Outro contacto que fiz o senhor disse-me assim "olhe, só lhe mostro a propriedade se o senhor quiser realmente comprá-la...", ao que eu lhe respondi "tenho que vê-la antes de decidir isso"... e assim ficamos neste impasse, acabei por não ir lá!

Estas e mais histórias vão acontecendo. Nada que desanime. A propriedade que procuro anda por aí e em breve será descoberta!

Até lá... think about it!







sexta-feira, 11 de abril de 2014

Congresso Agroin - 9 de Abril de 2014

Realizou-se na passada quarta-feira, dia 9 de Abril, no Centro de Congressos do Casino Estoril, o fórum Agroin. O fórum era direccionando para profissionais do sector agro-alimentar e a temática era "Re-inventar para Crescer". A organização esteve a cargo da revista "Vida Rural".

Como já havia mencionado nas publicações anteriores do Blog dos Bosques, é muito importante a presença em congressos, fóruns, workshops, acções de formação, etc e digo isto não só para a agricultura! Quando queremos entrar numa nova área de negócio é preciso sentirmos o pulso ao mercado, conhecer os principais players, quais as temáticas que se estão a discutir, que tendências estão a ser projectadas, perceber as dificuldades do sector e criar redes de contactos. Estes são apenas alguns exemplos das vantagens em estar presentes nestes eventos. 

No meu caso, que sou um principiante na área, a experiência não podia ser mais enriquecedora! Estar cerca de 10 horas a ouvir discutir o passado, presente e futuro do sector alimentar em Portugal é um privilégio. O objectivo é ouvir, ouvir e ouvir. Aprender, aprender e aprender. Sinto-me como uma esponja a absorver informação. E claro que não se deve acreditar em tudo o que se ouve ou ficar "encantado" com boas oratórias e ideias que parecem fantásticas. Mas é bom estar envolvido e ganhar novos insights para pensar e mais tarde explorar. É como lançar mais lenha para uma fogueira. 

As principais palavras mencionadas no congresso foram inovação, conhecimento, cooperativismo, desenvolvimento, futuro, exportação, criar valor, made in Portugal, profissionalização, dimensão e sustentabilidade. Todos os oradores e mesas de trabalho abordaram estes assuntos de uma forma directa ou indirecta.

A sessão de abertura ficou a cargo do ex-ministro Augusto Mateus. Com o auditório a encher-se de forma gradual (diga-se que esteve praticamente cheio, embora no final do dia já houvessem menos resistentes), o dia não podia ter começado da melhor forma pois os cérebros de toda a plateia ainda estavam frescos e ávidos de informação. A propósito de sustentabilidade, Augusto Mateus teve, na minha opinião, uma tirada bastante simbólica, engraçada e verdadeira: " Usar a palavra sustentabilidade como palavra de acção e não como chantilly para decorar conferências!". So true!!

O ex-ministro fez uma excelente palestra e focou-se na questão de que o país não deve repetir os erros do passado, deve ganhar posições para o futuro, tem que pensar em investir e não apenas em consumir, tem que incentivar as PME's do mundo rural e pensar muito bem a questão dos subsídios: não dar apenas por dar! Sobre a questão de aprender com os erros do passado, mencionou que as principais lições que devemos aprender enquanto empresários agrícolas são: vivemos num mundo global, não há empresas isoladas, não há sectores (há cadeias de valor!) e que o papel do ser humano é fundamental no ambiente competitivo dos dias de hoje. Deve-se desenvolver as pessoas e as suas competências. Trabalhar o capital humano!

As apresentações seguintes ficaram a cargo de Eduardo Vasconcelos da Bel e de Mauro Cardoso da Monliz. Ambas as apresentações focaram-se na parceria entre marcas e produtores. Quais são os principais desafios e como se pode desenvolver uma parceria que seja win win e diminua o risco para os dois lados. A principal conclusão é que todos têm que participar na criação de valor ao longo da cadeia de produção. Não pode haver pontas soltas, tem que haver entreajuda e tem que se trabalhar com seriedade e responsabilidade.

A mesa redonda que se seguiu foi composta por Luis Pinheiro da Lusomorango, Manuel Évora do Grupo Luis Vicente, Pedro Atalaya da ANPOC e José Manuel Gomes da Casa Prisca. A moderação esteve a cargo de Isabel Martins, directora da "Vida Rural", que teve sempre a capacidade de fazer perguntas desafiantes não só nesta mesa, mas ao longo de todo o dia. Por vezes não é fácil ser jornalista e colocar o dedo na ferida, mas esta publicação tem-se esforçado por discutir os assuntos realmente importantes e deve ser congratulada por isso. 

Esta mesa redonda falou da aposta na qualidade em nichos de mercado como forma de criar valor, aumentar as receitas e diminuir o risco. Foi excelente ouvir os casos da fruta desidratada ou dos cereais BTP. Bons exemplos de como se pode olhar para os mercados e para a produção de novas maneiras e não competir apenas na commodity.

Depois da pausa para o café, o GPP através de Luis Ramos, apresentou a estrutura das principais contas cultura em Portugal, desde a parte agrícola até à pecuária. Foi talvez a parte mais extensa do congresso, e podiam ter-se tirado mais conclusões, pois foi muito factual. Mas mesmo assim, deu para compreender as diferenças nos custos das diferentes actividades. A seguir, Pedro Avillez explicou como a Agroges trabalha em termos de metodologia com os seus clientes na questão de prever as rentabilidades agrícolas. A questão da criação de cenários alternativos que podem ocorrer consoante o comportamento das diferentes variáveis que afectam a rentabilidade, teve bastante enfoque.

Uma das apresentação mais esperadas (pelo menos para mim), era a de Jorge Tomé, Presidente da Comissão Executiva do BANIF. Após uma análise da conjuntura económica em Portugal ficaram 4 conclusões principais: os bancos têm crédito para atribuir, nenhum sector cresce sem o apoio dos bancos, a agricultura é um sector pojante e os bancos não sabem nada sobre o sector agrícola!! Gostei da frontalidade com que este Director do BANIF apresentou este desconhecimento do mercado agrícola, pois sinto que não foi dito com o intuito de mostrar uma fraqueza. Pareceu-me que afirmação foi feita com a vontade de aproveitar uma oportunidade e trabalhar em conjunto com os produtores agrícolas de Portugal. É esperar para ver!

Antes de almoço, ainda tivemos a oportunidade de ouvir Jorge Soares da Campotec falar sobre práticas vencedoras na produção de pêra rocha e que têm tido um grande impacto nos custos variáveis. Falou-se no pagamento aos apanhadores da fruta ser feito ao quilo e não à hora. E também da aplicação de fito fármacos nas árvores de fruto de uma forma mais eficiente, apropriada e taylor made. Ambas as medidas reduziram custos variáveis e tiveram grandes impactos na eficiência. Não é isto que todos queremos?

Após o almoço Carlos Gonçalves, da Mendes Gonçalves, fez uma excelente apresentação sobre a internacionalização da marca Paladim. Foi como um bom digestivo após o fantástico almoço que organização ofereceu aos participantes. De forma clara e transparente, falou das várias vertentes que se devem equacionar quando se internacionaliza uma marca: do estudo exaustivo do mercado de destino, da investigação e desenvolvimento necessários, da adaptação aos mercados locais (fiquei particularmente impressionado com o facto de terem packaging próprio para cada mercado e não porem etiquetas em cada embalagem a traduzirem os ingredientes) e do orgulho em ser Português e produzir em Portugal. Parabéns Paladim!

Para finalizar o congresso houve duas mesas redondas. As duas foram bastante acesas, o que é de congratular mais uma vez, pois discutiam-se assuntos importantes e é necessário falar nas coisas com frontalidade.

A primeira mesa, moderada por Luis Mira da INOVISA, contou com a presença Aristides Sécio, presidente da ANP (Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha), João Miranda, CEO da Frulact e Manuel Rocha, CEO da Adega de Borba. Todos falaram sobre os projectos das organizações que representam e dos desafios que têm pela frente. A mesa era suposto girar à volta da temática dos pontos fortes de Portugal na altura de abordar novos mercados. Mas a discussão acabou por ser outra, também bastante proveitosa a meu ver. Discutiu-se mais uma vez a necessidade do corporativismo, algo que tem sido transversal a todos os congressos a que tenho assistido. E também da necessidade da profissionalização das organizações de produtores. Só assim haverá dimensão, massa critica, poder negocial e criação de valor nas diversas fileiras de um mercado pequeno como é o de Portugal.

A segunda mesa, que girou à volta da temática da relação dos produtores com a Grande Distribuição, foi moderada de novo por Isabel Martins e contou com a presença de Domingos Santos da FNOP e Frutoeste, Duarte Xarepe da SRS Advogados, Francisco Mendes da Telles de Abreu, Joaquim Candeias do Intermarché e Pedro Pimentel da Centromarca. Estava em pulgas para este debate. Como ex membro da Distribuição Moderna e seguidor activo deste mercado queria ouvir o que tinham para dizer. 

Falou-se da nova lei anti dumping, na qual não fiquei muito esclarecido. Parece-me que os retalhistas vão conseguir continuar a disfarçar as rubricas que entram para a formação do preço de custo como bem lhes convier. A questão dos novos limites da multa ficar ao critério da ASAE também me parece polémica. Perdeu-se uma boa oportunidade de se fazer um diploma sério e que de facto protegesse produtores, retalhistas e acima de tudo consumidores. Durante a discussão ficou também patente alguma tensão entre a Centromarca e o Intermarché. Cada um a puxar a brasa para o seu lado através de frases bonitas e que têm significados e consequências muito mais profundas. Julgo que enquanto as marcas, produtores e retalhistas não equilibrarem os seus poderes negociais, não forem mais transparentes nas suas práticas e tentarem entender e ouvir o outro lado, vai ser muito difícil chegar a consensos. O fosso apenas vai continuar a aumentar!

O dia terminou por volta das 19 horas com umas pequenas palavras de Nuno Vieira Brito, secretário de estado da alimentação e da investigação agro alimentar. Falou do incentivo à inovação e do conhecimento como base para o futuro da agricultura! Isabel Martins ainda tirou algumas conclusões sobre o congresso e deu as boas vindas a todos os jovens agricultores. Senti-me bem acolhido neste novo meio que culturalmente tem fama de ser um pouco fechado. É bom que as pessoas percebam que nós, os jovens agricultores, estamos aqui para ficar e que não somos apenas o nome de um subsidio. Muitos vão entrar e sair porque não estão preparados, mas os que ficarem vão ser o futuro do sector em Portugal, por isso precisamos do máximo de ajuda possível!

Foi muito bom ter estado presente neste congresso. A Sociedade Agrícola Queirós, através do seu único trabalhador (eu!!) continuará a marcar presença nas vários eventos da área que forem ocorrendo por Portugal e com os objectivos muito bem definidos: ouvir, ouvir e ouvir. Aprender, aprender e aprender!

Think about it!



segunda-feira, 31 de março de 2014

Indiana Jones 5: Em busca da Propriedade Perdida!

Criada que está a Sociedade Agrícola Queirós (SAQ para os amigos), chegou a altura de procurar o epicentro deste projecto, o coração de toda esta epopeia, a menina dos meus olhos: a terra onde inicialmente me vou estabelecer! Um bocado de Portugal só para mim e onde poderei exercer essa nobre actividade conhecida como agricultura.

Hoje estamos a 31 de Março e desde que comecei a visitar propriedades, já lá vai um mês e meio. Ao todo visitei mais de dez, e já estão agendadas mais quatro.

O foco tem sido o Alentejo. Embora já tenha ido ao Ribatejo e a minha família tenha origem nas Beiras, é ali que me sinto bem e é também onde existe a necessária dinâmica agrícola para exercer as actividades que até agora mais me entusiasmaram: pecuária (vacas e porcos) e cereais (para grão ou forragens). No Alentejo é também onde os preços por hectare mais se adequam às minhas possibilidades... a região do Ribatejo tem melhores solos e mais água mas é tudo muito mais caro!!

Para além de todos estes factores há outros dois que também pesam: a distância a Lisboa (não me quero tornar um eremita solitário de barbas grandes que renegou a sociedade citadina) e o chamamento do montado Alentejano... em todas as minhas viagens pelo mundo raramente encontrei um local tão bonito e que me traga tanta paz interior... há alguma coisa mais bonita que um velho sobreiro ao pôr-do-sol?

Em termos de contactos, estes têm sido feitos através de amigos, gente da agricultura, anúncios de jornal, imobiliárias, etc tenho conhecido gente bastante diversa e interessante.

De mencionar que depois de tantas visitas, até já ganhei interesse em novas áreas, nomeadamente a vinha e o olival! Duas culturas bastante "nativas" de Portugal e que aqui são plantadas desde o tempo dos Romanos. Há dois anos não tinha o mínimo interesse nestas áreas, mas se há coisa que aprendi é que não devemos renegar aquilo a que a terra é propícia! Para quê andar à tareia com os solos e com as condições climatéricas? Para quê tentar fazer crescer ananases no Alentejo?

Através do Pai da minha amiga Joana Torres também tive alguns insights sobre abóboras, pimentos e courgettes. Também fui a um congresso sobre Milho em Beja e aprendi mais sobre esta cultura. Nesse evento o regadio do Alqueva foi colocado em destaque. O maior lago artificial da Europa. O El Dorado da agricultura. Já lá fui fazer uma visita e gostei. Há terra para arrendar e comprar, mas a água é bastante cara e as produções demasiado intensivas para o meu gosto. A ver vamos...

Em termos de check list em cada propriedade é preciso olhar para diversos factores. Tamanho, preço por hectare, solos, vedações, água (CRUCIAL), electricidade, distância à estrada, monte para habitação, edifícios agrícolas, se vem com alguns equipamentos, se já tem alguns apoios, arrobas de cortiça, número de azinheiras ou pinheiros, culturas anteriores, estruturas de rega (bomba e pivots), etc, ou seja um grande número de variáveis!

Trata-se de um investimento considerável e que por isso requer um grande envolvimento. Há que estar o melhor informado possível para tomar a melhor decisão possível.

No fim do dia, e segundo a minha maneira de olhar para as coisas vai tudo estar dependente de duas coisas: o facto de ser viável (ninguém quer fazer um mau investimento) e o sentir-me bem no local em questão... terá de haver com certeza alguns sobreiros no pôr-do-sol...

Think about it!



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A criação da Sociedade Agrícola Queirós.

Ninguém sabe explicar porquê. Talvez seja porque fomos feitos para isto. Talvez a finalidade do ser humano seja criar. Uns criam filhos. Uns criam espaços. Uns criam objectos. Até há uns, cuja especialidade, é criar problemas.

Eu aqui ando há algumas semanas a criar uma empresa e um projecto agrícola. Na verdade o projecto já começou há cerca de dois anos e meio, mas só agora começa a tomar as suas primeiras formas.

Ninguém sabe explicar porquê. O processo de criação e entrega a qualquer coisa é, sem dúvida, das melhores coisas que podemos ter na vida. A responsabilidade de fazer nascer algo e tratarmos dela desde os primeiros passos até à maturidade. Saber que podemos aproveitar um conjunto de circunstâncias, conhecimentos, saberes, experiências de vida, redes de contactos para desenvolver algo. Sentir o medo e a adrenalina ao mesmo tempo. Ganhar noções de risco. Atirarmo-nos para a piscina, tentando obviamente que ela tenha o máximo de água possivel!

É preciso ter uma visão. Um sonho. Olhar para o futuro e projectar algo. Imaginar qualquer coisa. Fazer cenários. E depois implementá-los com um grande jogo de cintura. As circunstância podem mudar e temos que nos adaptar a elas.

A minha maior dificuldade na criação deste projecto agrícola, que ainda está nos seus primeiros passos, ou seja numa fase muito embrionária, é a gestão de expectativas. À medida que vou compreendendo os modelos de negócio das várias àreas agrícolas e percebendo como as coisas funcionam, tenho a tendência para projectar na minha cabeça coisas grandes para o futuro.

Sendo uma àrea com muitas oportunidades em Portugal e onde os custos do capital ainda são baixos comparativamente a outros países, facilmente caio na armadilha de pensar em ter muita terra, muita produção, marcas associadas, mudar o mundo!!

Mas pronto, rapidamente volto a colocar os pés na terra... Há que ter humildade quando se entra numa área nova. Como ouvi dizer no outro dia, a agricultura está na moda. Muitas pessoas não se apercebem que é das àreas mais técnicas, cientificas e dificeis para trabalhar. Se queremos ser competitivos na agricultura é preciso muito trabalho e conhecimento. Também são necessários grandes quantidades de capital para entrar neste àrea, coisa que não disponho. Por isso aquilo que pretendo montar é apenas uma pequena unidade produtiva, desenvolvê-la e ver, com o tempo, onde o caminho leva.

Defini alguns objectivos para entrar nesta àrea: desenvolver o país, inovar, interagir com a natureza, sair da azafama da cidade e ter um retorno sobre os capitais investidos. Não pretendo ficar rico com a agricultura mas também não há necessidade de perder dinheiro!

Defini 21 passos para a criação deste projecto. Alguns mais técnicos, outros mais conceptuais. Mas é o caminho que foi escolhido.

Uma das boas notícias sobre a criação deste projecto recebi-a ontem à noite: o certificado de admissibilidade da "Sociedade Agrícola Queirós, Unipessoal, Lda" já foi emitido. A empresa já existe. Falta assinar o contrato de sociedade e o pacto social mas as coisas começam a tomar forma!

A small step for man, a giant leap for mankind :-)

Aqui ficam os 21 passos, descritos de forma generalizada... think about it!!

1- Estudo da legislação aplicável ao sector agrícola, nomeadamente os apoios ao jovem agricultor.

2- Ter assegurado o financiamento para iniciar a actividade, atenção a custos inesperados, garantir o fundo de maneio até ao surgimento de receitas.

3- Estudo das diversas actividades agrícolas, pecuárias e florestais.

4- Estabelecimento de uma rede de contactos com agricultores + experientes, cuidado com os velhos do restelo.

5- Escolha do local de instalação: terra (solos, condições climatéricas, água, biodiversidade, acessos, mercados, etc..)

6- Estudo do mercado seleccionado: procura, oferta, preços, importações, exportações, etc..

7- Descrição do processo técnico de forma detalhada e rigorosa (ex: cereais desde a semente até ao comprador).

8- Atribuir um valor de mercado a cada uma das actividades descritas no ponto 7. Plano de vendas e custos para 10 anos. Incluir análises de sensibilidade.

9- Outsourcing de serviços vs compra de maquinaria própria.

10- Verificar disponibilidade de mão-de-obra nas região escolhida.

11- Arranjar empresa de contabilidade agrícola.

12- Criação de sociedade de suporte ao negócio. Sociedade Agrícola Queirós.

13- Abrir conta em nome da sociedade.

14- Assegurar serviços jurídicos.

15- Telemovel, via verde, seguros.

16- Viatura de trabalho. Perceber as necessidades do dia-a-dia bem como custos (portagens, consumos, imposto sobre veiculos, etc..)

17- Passar à implementação do projecto. Prioridade às coisas mais imediatas.

18- Construir mapas de controlo internos.

19- Planear com rigor a sequência de execução/pagamento/reembolso no caso dos subsídios agrícolas.

20- Ser um membro activo de instituições agrícolas, cooperativas e na comunidade local. Ter relações cordiais com colegas de profissão, clientes e fornecedores.

21- PRUDÊNCIA NOS GASTOS!


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O empreendorismo é uma ciência?


No decurso do meu recente estudo de abrir uma empresa agrícola, a primeira questão que me surgiu é o que é isto de ser empreendedor? Quais são os factores a ter em conta quando decidimos ser patrões de nós próprios? Quais devem ser as características de um empreendedor e como é o ambiente que rodeia tal individuo? Fui à procura de algumas respostas e apresento-as aqui em directo no Blog dos Bosques.

O empreendorismo não é um bem divino que nasce com as pessoas. Pode ser ensinado como muitas outras áreas. Conhecimentos sobre a área em que se vai trabalhar, contactos, marketing, finanças, operações são algumas das competências a desenvolver.

O empreendorismo também não representa, ao contrário do que muitas pessoas pensam, a implementação de uma ideia ou inovação radical. Se estivermos a fazer algo ligeiramente diferente dos outros, e ao mesmo tempo a gerar valor para o cliente já estamos a ser empreendedores. Mudar o horário de atendimento, alterar um preço ou atacar novos segmentos são formas de inovação que representam empreendorismo.

A meu ver, o ponto de partida para o empreendorismo, não deverá ser o ganhar dinheiro para as despesas do dia-a-dia. É importante que seja visto como uma forma de realização pessoal e profissional. Esta realização está directamente ligada à valorização pessoal e dos que nos rodeiam, à independência e ao interesse genuíno pelo que se faz.

Portugal é conhecido como um país de pouco empreendorismo. Somos um país com elevada aversão ao risco e níveis acentuados de colectivismo, (estudos culturais de Hofstede sobre cultura empresarial nos diferentes países).

A população tem medo de falhar e de ter insucesso. O grupo é privilegiado acima do individuo e o sucesso pessoal nem sempre é bem visto, sendo muitas vezes questionada a honestidade dos que vencem na vida…

Estes dois factores representam um grande obstáculo à actividade empreendedora no nosso país, pois há sempre um nível de risco no empreendorismo que não se consegue evitar. Para além disso há bloqueios psicológicos de cariz cultural quando se ganha ou perde. Se falhamos estamos condenados e perdidos, não haverá segundas oportunidades e ninguém se esquece. Se vencemos somos desonestos e tivemos sorte. Parece que mais vale ficar sossegado num canto e deixar a vida andar…

Felizmente o empreendorismo já tem vindo a ser melhor aceite e o reflexo disso, é a contribuição dos media para a divulgação de casos de sucesso. No entanto, a meu ver, ainda há um longo caminho cultural a percorrer para que se possam alterar mentalidades nesta área.

O primeiro passo de um empreendedor é a identificação de uma oportunidade presente ou futura. Esse trabalho parece mais difícil hoje em dia. A globalização trouxe grandes desenvolvimentos, principalmente nas áreas das tecnologias de informação e comunicação.

Este facto veio alterar o comportamento dos consumidores e das empresas e daí a dificuldade na identificação de oportunidades. Tudo parece mudar rapidamente. O consumidor tem uma grande diversidade de ofertas e às vezes até altera a sua decisão conforme o ambiente em que se encontra. Muitas empresas não conseguem acompanhar este ritmo competitivo e fracassam na capacidade de fazer face a ameaças ou aproveitar oportunidades.

Normalmente as oportunidades estão implícitas nas tendências e mudanças, sejam elas sociais, politicas, económicas ou culturais. Até as situações de crise podem representar uma oportunidade. Hoje em dia as grandes tendências passam valorização do eu, pelo sobressair dos outros através de posses e experiências, manter a jovialidade para sempre (complexo de Peter Pan do qual eu sofro abundantemente), procurar uma vida mais saudável, vidas muito ocupadas e com diversas frentes, o uso de redes sociais e novas tecnologias que poupem tempo na execução de tarefas, etc

Podem ser identificadas excelentes oportunidades ou ter-se excelentes ideias. O problema é passar à acção e transformar essas ideias em algo palpável. Para além dos nossos problemas culturais já mencionados, há também outros factores que determinam a falta de empreendorismo em Portugal.

Em primeiro lugar o difícil acesso a capitais ou desconhecimento dos meios de financiamento disponíveis no mercado. Em segundo a irregularidade das políticas governamentais e “danças” de governos. Por último, é algo que não nos é ensinado na escola. O programa escolar, deveria desafiar a mente das crianças a inovar, a criar e acima de tudo, a explicar quais são os passos necessários para concretizar uma ideia e passar à acção.

Um estudo do Eurobarómetro, indica que 37% dos Europeus gostaria de ser empreendedor mas que apenas 15% o concretizam. Outro estudo realizado pela EOS Gallup Europe Institute, refere que 71% dos Portugueses gostariam de ter o seu negócio próprio, a taxa mais alta da Europa!! A pergunta era “ Será que devo ter o meu próprio negócio?”. Noutros países de cultura Escandinava ou Anglo Saxónica, a resposta foi precisamente o contrário, ou seja, preferem trabalhar por conta de outrém.

Portanto, as pessoas querem ser empreendedoras para ter independência, dinheiro, satisfação pessoal, realização e porque observam de uma boa oportunidade. Mas porque há tanta gente que se fica pela intenção?

A resposta óbvia é que há muitas pessoas que se sentem seguras e confortáveis no seu emprego, têm uma família estável e um bom estilo de vida. E perante isso, não estão dispostas a arriscar serem empreendedoras.

Mas na verdade há muitas pessoas que até têm o capital ou conhecem os meios de chegar a ele, têm conhecimentos e capacidade, já vislumbraram a oportunidade mas mesmo assim não arriscam. Afinal o que distingue um empreendedor de um não empreendedor?

Segundo o livro “Ser Empreendedor” das Edições Sílabo, os traços principais de um empreendedor são:

- É alguém que toma iniciativa para criar algo novo e de valor para o próprio empreendedor e para os clientes,

- O empreendedor tem que despender o seu tempo e esforço para realizar o empreendimento e garantir o seu sucesso,

- O empreendedor recolhe as recompensas sob a forma financeira, de independência, reconhecimento pessoal e de realização pessoal,

- O empreendedor assume os riscos de insucesso de empreendimento, quer sejam financeiros, sociais ou psicológicos/emocionais.

Mas o que leva os indivíduos a serem empreendedores? Este é definido em termos de comportamentos e atitudes. Ninguém nasce assim porque não há genes de empreendedor. Há as motivações próprias ou até uma situação de necessidade. Há também outros factores como o ambiente educacional e familiar, se os pais também foram empreendedores, as experiências passadas (se objectivos anteriores foram concretizados ou não), a experiência profissional prévia e a idade. 

De facto, a grande fatia de empreendedores são indivíduos entre os 25 e 45 anos que já tiveram pelo menos um emprego. Mas também não me parece que haja um critério de idade obrigatório, embora admita que a vitalidade física seja importante. Não se pode embarcar num novo projecto se nos sentirmos cansados ou em má forma física ou mental.
Antes de terminar, um pequeno paragráfo sobre a questão do risco. Normalmente pensa-se que quem começa um novo negócio assume grandes riscos. Esta frase não deixa de ser verdade mas são riscos controlados. Com um bom estudo de mercado, um bom modelo de negócio, um financiamento equilibrado, uma estratégia viável e com parceiros conhecedores da indústria e do mercado, reduz-se em grande escala os potenciais riscos de um novo negócio.

Por fim termino com uma lista de mitos e frases sobre o empreedorismo que encontrei. São apenas isso… mitos! A vontade, o rigor, trabalho e o desejo de sonhar parecem-me bem mais importantes! Think about it!

- O empreendedor nasce, não se faz.

- Qualquer um pode iniciar um negócio.

- São jogadores/apostadores que assumem riscos excessivos.

- Têm necessidade de protagonismo.

- São patrões de si mesmo.

- Trabalham muito.

- Iniciam negócios de risco.

- Apenas para os ricos.

- Idade é uma barreira – apenas para os jovens.

- São motivados apenas pelo dinheiro.

- Procuram o poder e controlo sobre os outros.

- Se tiverem talento, o sucesso chega em 1, 2 anos.

- Qualquer pessoa com uma boa ideia pode enriquecer.

- Tendo dinheiro é fácil falhar.

- Sofrem de stress.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Colômbia e o final da aventura da America do Sul!

A Colômbia assinalou o destino final da nossa viagem. Percorremos o norte do país: Cartagena, Playa Blanca, Santa Marta, Taganga, Minca e a capital Bogotá.

Foi um dos melhores países que visitamos mas ao mesmo tempo um dos mais estranhos.

O primeiro choque foi a onda de calor em Cartagena, cerca de 35 graus. Esta cidade, que foi a primeira na America do Sul a ser colonizada pelos Espanhóis representa bem aquilo que é a Colômbia hoje em dia: turismo, crescimento, ebulição, pessoas, juventude e salsa... Muita salsa!

No meu imaginário este era o país de Pablo Escobar e dos cartéis de cocaína. E também de Valderrama claro, o jogador de futebol com o melhor penteado de sempre (para quem não conhece o seu cabelo parecia uma palmeira).

A imagem das drogas, milícias, raptos e assassinatos que muita gente tem da Colômbia é um erro e faz parte do passado. Na zona da selva ainda há locais controladas pelas FARC, mas neste momento a grande maioria do pais está virada para o exterior e para o século XXI.

Há tantas oportunidades e tanto por fazer que apetece ficar ali e tentar a sorte. Nunca tinha visto um El Dorado assim, um sítio com tanto potencial... Mas pronto, também já sei que provavelmente será uma bolha, e que daqui a uns anos, depois de alguns crescimentos a dois dígitos, o pais entrará no comum ciclo do crescimento infinitesimal e novas crises sociais e políticas surgirão! Tomara que esteja errado!!

Mas há muito por fazer no país: o poder de compra está a aumentar, há uma nova classe média nas grandes urbes e muita juventude! O novo Brasil ou Angola para quem quiser investir!

Percorremos o norte da Colômbia, na chamada zona do Caribe! Ficamos em praias paradisíacas, dormimos em redes, bebemos sumos de fruta, comemos peixe e marisco, vimos aranhas do tamanho de bolas de ténis e caminhamos na selva ao estilo do filme "Em busca da Esmeralda Perdida"! Foi bom terminar a viagem assim, com algum descanso e calor. A pior parte foram os mosquitos. Fomos atacados sem dó nem piedade. As nossas pernas e braços pareciam bifes do lombo numa aldeia da Etiópia.

No fim ainda fizemos Bogotá, a capital da Colômbia com 12 milhões de habitantes. Há 15 anos esta era a cidade mais perigosa do mundo, com o maior número de assassinatos. Hoje é uma cidade cosmopolita e moderna, com milhares de pessoas a passear na rua e a rebentar de energia. Ficamos na zona cultural da cidade, a plaza Chorron e vimos muitos espectáculos de rua. Um deles, o contador de histórias, ficará nas nossas memórias para sempre. Também visitamos o museu Botero, o museu do ouro e fizemos as últimas compras de Natal em feiras de artesanato gigantescas!

No dia 22 de dezembro partimos para o aeroporto. Por certo cada um de nós falou com os seus botões e se perguntou se queria mesmo voltar já. A resposta foi sim. Há timings para tudo e esta experiência já ninguém nos tira. Para além disso eu estava com uma dor de dentes horrível e apesar de estar em Bogotá, só pensava no meu querido dentista ali na rotunda da Estefânia!

Para trás ficaram quase 4 meses de experiências incríveis. Espero que se tenham divertido tanto como eu nos relatos do Blog dos Bosques e nas fotos que fomos colocando no Facebook e Instagram.

É uma viagem que toda a gente devia fazer e aquele que volta não fica indiferente. A America do Sul é um local com uma energia muito especial e onde ainda acontecem daquelas coisas que ouvimos nas histórias ou vemos nos filmes. 

Agora em Portugal, olho para trás e nem acredito nas coisas que vi e locais onde estive. A experiência na quinta da Malfatta, o Iguazu, Ushuaia, os Andes, os animais que vimos, o glaciar do Perito Moreno, Machu Picchu, as pessoas que conhecemos... Muitas delas nativas dos próprios países e a viver com muito menos do que qualquer um de nós alguma vez imaginou...

E agora? O futuro?

A pergunta mais importante para mim é: como se regressa de uma viagem destas depois de tudo o que se fez e viu? Como se aproveita a experiência para ser melhor? Estamos mais vazios ou mais cheios? Mais completos?

Se calhar, há 15 anos atrás, iria ficar cheio de nostalgia e saudades depois das experiências que tivemos.

Hoje com 30 e poucos anos, sei que não há tempo para isso. Devemos sim, aproveitar esta oportunidade da melhor maneira possível e potência-la para o futuro, juntado aquilo que vivemos com aquilo que já éramos anteriormente!

Tivemos tempo para reflectir no passado, presente e futuro. Tempo para aprofundar pensamentos e tomar decisões. Ganhar novas referências. Melhorar enquanto pessoa. Decidir o caminho.

A principal conclusão é que o futuro é uma folha branca por escrever e só depende de nós o que fazemos com ele! Vamos a isso!

Think about it!




terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Nos trilhos do Perú!

O Perú era um dos destinos mais aguardados pelo grupo. A capital do Império Inca, Cuzco e a cidade perdida de Machu Picchu aproximavam-se a passos largos.

Quando chegamos a Cuzco eram 5 da manhã. O autocarro que nos trouxe da Bolívia demorou 12 horas e desta vez saiu me a rifa no assento ao meu lado. Um padre de 150 kilos, vestido de saias e com a cara igual à do Ribery, scary!!

Ficou muito por ver no Perú. Arequipa e o seu parque natural de condores, o norte, a costa com as suas praias, a selva e mesmo outros locais mais interiores, onde gostamos sempre de ir para vermos as aldeias que não foram tocadas pelo tempo e onde as populações vivem da mesma forma há várias centenas de anos.

Fizemos Cuzco, Machu Picchu e Lima e já deu para ficar com uma ideia do país e a sua cultura.

Cuzco é uma cidade lindíssima. Tem muitos prédios de arquitectura colonial espanhola, praças onde se reúnem mercados e pessoas, uma catedral rica no seu interior, ruelas estreitas pavimentadas com calçada e muitas referências a arte. Na área de San Blas há algumas galerias, espectáculos de rua e restaurantes confortáveis. Num dos dias entramos na faculdade de belas artes e trocamos algumas impressões com um professor de desenho. Subimos a pé ao Cristo Blanco, uma estátua ao estilo cristo rei, e que do topo de uma montanha, abraça toda a cidade com os seus braços esticados.

No mercado presenciamos aquilo que já tínhamos visto noutras cidades da América do Sul. Muitas frutas, sumos, artesanato, roupa, comida, barulho, cores e milhares de acessórios à venda género capas de telemóvel e corta-unhas.

Ficamos hospedados num Hostel bastante bom e barato. Mas nunca consegui decorar o nome do mesmo. Ao fim de semana a cidade enchia-se de festa e havia vários bailaricos espalhados pelas ruas e pessoas a cozinhar. Aproveitamos para fazer algumas actividades outdoor que ainda não tínhamos feito: rafting no rio, andar a cavalo e fazer uma zip line, que é basicamente um cabo que é atravessado de um lado ao outro do rio e se passa pendurado num gancho a alta velocidade! Dar o primeiro passo mete medo...

A tão aguardada viagem para Machu Picchu começou na sexta-feira dia 29 de novembro. Só lá íamos chegar 1 dia depois. 

Há duas maneiras de chegar a Machu Picchu: a rápida e cara vs a lenta e barata.

A primeira custa 190 dólares ida e volta e é um comboio que sai todos os dias de Cuzco. A segunda vale cerca de 30 dólares...

Como bons mochileiros pobres que somos, avançamos para a segunda hipótese. Queríamos sentir as dificuldades de chegar a este sítio mítico e ganhar o mérito de ter chegado a Machu Picchu com esforço e trabalho!!

E na verdade isso aconteceu... Foi duro e estafante... O sítio mais afastado e difícil de chegar nas Américas até agora! Primeiro apanha-se um autocarro de 6 horas de Cuzco até Santa Maria. Nesse autocarro viajamos com dois peruanos a suar em bica e a cheirar a lixo. O condutor era louco e a estrada estava cheia de curvas. Eu e o Miguel enjoamos bastante. Depois um taxi de duas horas até à central hidroelétrica numa estrada de terra e com precipícios de várias centenas de metros. E para terminar a viagem até Águas Calientes, a cidade que serve de apoio a Machu Picchu... mais uma caminhada de 2 horas por uma linha de comboio no meio da selva! Nesta estrada que atravessa o vale sagrado, passamos pontes com tábuas de madeira duvidosas género Indiana Jones e vimos pirilampos ao anoitecer. Surgiram duas perguntas: onde estão os pirilampos que havia em Portugal antes? Ainda se vende o pirilampo mágico?

Quando se chega a Machu Picchu surge outra pergunta: porque é que os incas foram para ali?? O que lhes deu na cabeça? O sítio é completamente selvagem, situado num planalto de umas montanhas assustadoramente altas. Harry Bingham descobriu o local em 1911 com a ajuda de um pastor que lhe falou numas ruínas perdidas.

Acordamos por volta das 4 da manhã para apanhar um dos primeiros autocarros que leva os visitantes ao santuário. Às 6 da manhã em ponto, 11 em Portugal, as portas abrem. 

Nós entramos por volta das 6.10. 

A visão do santuário é simplesmente indescritível. A cidade e o estado de conservação em que se encontra são de cortar a respiração. Os espanhóis destruíram todas as cidades incas quando chegaram ao continente Sul americano, mas como nunca encontraram este local, ele assim foi ficando... Intacto!

Não se sabe ao certo para que servia este santuário... Retiro espiritual, centro religioso, forte militar, local para as mulheres do imperador, etc muitas são as hipóteses. 

Seja qual fosse a utilidade é simplesmente magnífico e recomendo vivamente toda a gente a ir. Subimos a montanha de Machu Puicchu para termos uma melhor vista e tirarmos algumas fotos. A escada é tão a pique que às vezes parece que se tem uma parede à frente. Muito semelhante à subida do Frodo Baggins para Mordor no Senhor dos Anéis. 

Vimos a arquitectura das casas na cidade principal e tocamos nas pedras de vários ângulos que se juntam como um puzzle umas às outras. É impressionante pensar como este povo carregou estas pedras que têm muitas toneladas e construíram estas estruturas há muitas centenas de anos sem sequer ter acesso à roda! Os Incas eram engenheiros fabulosos. Visitamos outros locais de interesse como o palácio do Inca e o templo das 3 janelas. 

Por toda a cidade correm carreiros de água construídos para facilitar o abastecimento de água e as canalizações. À volta da cidade, terraços com vários níveis, em formato de escada, serviam para cultivar batata, milho e favas. Estes terraços eram feitos na encosta nesta forma de escada para evitar a erosão criada pelas chuvas. Se eles não existissem, as terras seriam todas arrastadas!

Machu Picchu forever, era um dos sítios do mundo que sempre quis visitar e não desiludiu!

Para Lima, viajamos num autocarro super luxuoso com refeições a bordo e Tv privada com filmes e séries! Foram 20 horas que até se tomaram agradáveis!

Ficamos hospedados na zona de Miraflores, a única onde os turistas podem ficar nesta mega urbe de 12 milhões de pessoas... O resto é perigoso e feio!

Foi bom voltar ao nível do mar! Depois de 3 semanas na altitude foi excelente poder voltar a respirar em condições. A cidade tem uma linha de costa bastante bonita com praias e miradouros. Há vários surfistas na água. Comemos marisco, ceviche e bom peixe grelhado. Conhecemos o centro e visitamos as principais artérias. Trata-se de uma cidade moderna com muito comércio, prédios e trânsito. As pessoas mudaram face a Cuzco e já não se via tanto as feições Incas na cara das pessoas. 

Próximo passo é a Colômbia pois não nos deixaram entrar no Equador. É necessário ter um bilhete de volta para sair de lá e nós não tínhamos! Fica para a próxima e venha o Caribe da Colômbia, temos curiosidade em conhecer e guardamos 15 dias para o efeito!

O grupo de viagem segue unido. O cansaço é maior que nunca, os standarts de deconforto continuam a bater novos recordes mas já nos habituamos. Na Argentina por exemplo, marcávamos os Hostels com antecedência antes de chegarmos aos sítios. Onde isso já vai... Agora chegamos aos sítios, seja a que hora for e partimos à aventura, com a mochila às costas, em busca de hospedagem!

Na verdade, os sítios que conhecemos e as pessoas que se atravessam no nosso caminho compensam todas as dificuldades. Uma experiência sem igual mas também sempre igual: boa!

Think about it!