segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Ir ao Irão!


Um dos países mais misteriosos do mundo fica ali para os lados do Médio Oriente. Alguns chamam-lhe Irão. Outros mais ousados e românticos, poderão chamar-lhe Pérsia, em memória do antigo império que ali existiu há 2.500 anos, e que ainda hoje influencia os hábitos, cultura e personalidade deste povo.


Mas afinal quem são os Iranianos e o que é o Irão? Como se define um povo, cujas origens se situam numa das regiões onde nasceu a civilização e ao mesmo tempo tem servido de palco para alguns dos maiores conflitos a nível mundial? Como se define um povo que vive sob a alçada do Corão e de uma República Islâmica desde 1979, mas que também tem influências ocidentais implementadas pelo antigo Xá ou a paixão pela musica, poesia, vinho e amor herdada dos persas?


Aliás, a grande pergunta que me surge neste ano em que já visitei o país por 4 vezes, tem exatamente a ver com esta diversidade de influências… Poderá um país tão grande, tão rico economicamente e em tradições, tão jovem na sua população, ser governado por religiosos numa espécie de Teocracia Islamita e num mundo com tanta informação e avanço tecnológico?

Para responder a esta questão temos de conhecer um pouco do país e da sua população.

O Irão é o 18º maior país do mundo em área e o 17º mais populoso com cerca de 80 milhões de pessoas.  A sua capital Teerão, situada no sopé das montanhas Elbruz, é uma verdadeira mega metrópole com cerca de 14 milhões de pessoas. O trânsito e a poluição na cidade são tão intensos que por vezes as pessoas não podem sair à rua e as escolas fecham. É normal ver uma nuvem de fumo a pairar sobre a cidade ao estilo de São Paulo ou Cidade do México.

Mas à parte desse fator, estamos a falar de uma cidade altamente moderna, vibrante e cosmopolita servida por milhares de lojas, centros comerciais, mercados de rua, museus, mesquitas, jardins, complexos desportivos, segurança, transportes, escolas e estradas bem arranjadas, normalmente ladeadas por canais onde escorre a água que desagua dos picos brancos das montanhas.




Teerão é uma cidade de colinas, subidas e descidas. Para guiar aqui é preciso ser-se muito bom a fazer ponto de embraiagem. A torre de TV Milad, domina a paisagem da cidade com os seus 435 metros. É a sexta mais alta do mundo.


Os prédios habitacionais são verdadeiramente imponentes, normalmente construídos com estruturas de ferro maciço, ao invés do normal betão armado. Por toda a cidade, há gruas a anunciar a expansão da cidade. As grandes e médias organizações instalaram-se em modernos complexos e edifícios, mas devido às sanções económicas impostas pelos EUA, há muitas empresas que (ainda) não têm permissão para operar no mercado. Por exemplo, não há Macdonalds ou Burger King. Mas há Nike e Adidas. Não há Booking.com nem AirBnb. Mas há Lufthansa e Air France. Não há Visa nem Master Card. Se querem visitar o país, a única hipótese é trazer o dinheiro no bolso e trocar pelo Rial Iraniano.

O Facebook está censurado nos servidores locais. A Coca Cola supostamente é proibida, mas encontra-se por todo o lado.

O país palpita de vida e as ruas estão cheias de gente. 50% da população Iraniana tem menos de 35 anos e todos estão desejosos de progredir e vencer na vida. No entanto, o desemprego é alto e anda na casa dos 12%, obrigando bastantes pessoas a emigrar, nomeadamente para os EUA. Há inúmeras universidades, e para grande surpresa minha, vim a saber que 65% da população estudantil é do sexo feminino. Nos próximos 5 anos, o PIB vai crescer 6%. A base da economia é a produção e exportação de combustíveis fósseis. O litro de gasolina custa à volta de 0,30€.

O hábito de ir ao café pôr a conversa em dia está bastante enraizado. Os cafés de Teerão são um dos melhores locais para se medir o pulso aos costumes e observar os Iranianos.

A família é a unidade base da sociedade. Todas as gerações são muito unidas e os mais velhos são respeitados sem hesitação. Às sextas-feiras, dezenas de galerias de arte abrem as portas ao público e revelam o trabalho de jovens artistas ou outros mais consagrados.


Por todo o lado está hasteada a bandeira do país e nos estabelecimentos comerciais é obrigatório exibir fotos do líder supremo, o Ayatola Khamenei.

O papel da mulher está limitado ao que vem descrito na lei. Não podem fumar em restaurantes nem andar de mota ou bicicleta. Não podem ir a estádios de futebol. O uso do véu na cabeça é obrigatório e não é permitido expor a pele do corpo na rua. Os filmes, canais de televisão e jornais são censurados. Nenhum habitante, homem ou mulher, pode consumir álcool.    

A gastronomia é um atentado ao pecado e à satisfação do paladar. Nos restaurantes saltam à vista as romãs, tâmaras, pistácios, kebabs, sopas ricas, maçarocas de milho, azeitonas, mel, chá de menta e iogurtes misturados com pepino ou espinafres. Para os mais audazes, há um prato tradicional que pode ser servido com arroz ou salada: cabeça de ovelha. É bastante delicioso diga-se de passagem.       




A diversidade geográfica é uma realidade gritante e deixou-me verdadeiramente pasmado. Afinal o Irão não é só areia e deserto! No norte há florestas com estradas românticas e montanhas onde é necessário atravessar nuvens para chegar ao topo.

No sul, há o deserto e as ruínas de Persepolis, a capital do Império Persa fundado há 2500 anos. O túmulo do Rei Dário está escavado bem alto na parede de uma montanha. Dá arrepios só de pensar que ali se encontram os restos mortais de tão grande figura histórica.



Em termos culturais, os grandes polos de atração turísticos, são as tais ruinas de Persepolis em Shiraz, os palácios e jardins em Teerão e ainda as maravilhosas mesquitas de Esfahan, muitas delas consideradas património mundial pela UNESCO. As pinturas dos azulejos, e a arquitetura destes monumentos são de uma beleza que não têm descrição possível. Obras de arte únicas e todas feitas à mão.  




Muitas pessoas pensam que o Irão é um país Árabe onde há atentados terroristas, armas nucleares e as mulheres têm de andar tapadas de burka. Nada podia estar mais longe da verdade e reduzir o país a esta descrição representa uma ignorância total. Chamar um país Árabe ao Irão é o mesmo que chamar Espanha a Portugal. Ou confundir a ideologia e interpretação de outros que se fazem explodir em nome de Alá por esse mundo fora também é muito injusto. O Irão apenas está situado numa zona conflituosa e é um país muçulmano ponto final. Com todas as coisas boas e más que isso tem. Com certeza têm muitas coisas a melhorar e muitas lacunas no sistema nomeadamente em termos do conceito de liberdade, mas não se pode generalizar e dizer que é um país árabe cheio de terroristas. Isso é mentira e é uma generalização que não tem cabimento.

O meu fascínio pelo Irão sempre foi grande e tem vindo a ficar cada vez maior. E isso deve-se a um único fator: as pessoas. Políticas, infra-estruturas e comidas à parte, o melhor de tudo não podiam deixar de ser as pessoas. Simples, amistosas, com uma genética marcante e um carácter muito forte.

Falar da população Iraniana é o mesmo que falar de hospitalidade. Neste país é costume dispensar aos convidados as maiores gentilezas, o melhor lugar para se sentarem ou a melhor peça de carne. Tudo faz parte de um complexo sistema de cortesia pelo qual se rege o quotidiano do país. Um sistema que dá pelo nome Ta’aruf.

Falar do Irão e não falar de Ta’aruf, é o mesmo que falar de Portugal e não falar de bacalhau ou do fado. O Ta’aruf é o código que regula a vida social nos negócios, família, namoros, etc. É uma espécie de competição pela atitude mais humilde perante os outros sejam eles convidados, familiares ou parceiros de negócio. É uma atitude bastante louvável e que demonstra uma grande educação. Mas está tão enraizada que por vezes é difícil perceber as verdadeiras intenções e personalidade das pessoas. Reza a história que dois senhores encontraram-se na entrada de uma porta e que para decidirem qual dos dois passaria primeiro começaram a fazer Ta’aruf… um dizia “por favor passe, você é mais velho”, ao que o outro respondeu “Não, por favor, você primeiro pois tenho o maior respeito por si”, ao que o outro responde de novo “Não, mas você é um homem muito inteligente e educado” e por aí fora… reza a lenda que estão nisto há 620 anos…

Da minha parte, tenho sido um verdadeiro alvo de Ta’aruf e agradeço por isso. Obrigado a todos os que foram tão hospitaleiros até agora e em especial à Ghazal Vaziri, a verdadeira Princesa da Pérsia...

Visitem o Irão sem medos e de espirito aberto. O tal mistério que mencionei ao inicio existe, e os seus habitantes sabem isso… o que só faz da viagem ao Irão uma das ultimas grandes aventuras e uma experiência sem paralelo.



Think about it!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Uma viagem pela Ásia - Parte 1 de 3.

 
Os factos relatados neste texto são inspirados em acontecimentos verídicos. Mas qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Por esta altura, no ano passado, embarquei numa viagem rumo à Ásia. Foi no dia 23 de Janeiro de 2015.
Nessa madrugada, acordei na Pensão Milanesa situada nos Restauradores, baixa de Lisboa. Ali tinha vivido os últimos 5 meses da minha vida. Entre finais de Agosto de 2014 e Janeiro de 2015. Numa residência de estudantes Erasmus de várias nacionalidades. Todos na casa dos 24/25 anos.
Nesta altura eu vivia várias vidas. Todas numa só e todas em harmonia.
Durante esses 5 meses, no final de 2014, a minha rotina semanal era mais ou menos assim:
De Segunda a Quarta trabalhava numa quinta no Alentejo. Na zona de Vendas Novas. Começava Segunda-feira pelas 7 da manhã e ali ficava até Quarta-feira por volta das 17 horas.
Eram 3 dias de muito trabalho. Duro e intenso. Fosse a carregar lenha ou a tentar correr atrás de bezerros recém-nascidos para lhes colocar uma etiqueta na orelha, ao mesmo tempo que a mãe nos tentava dar cornadas.
Quase todos os dias almoçava duas bifanas no Horta e Bolota. Um restaurante na estrada de Vendas Novas. Quando as empregadas vinham receber o pedido, tapavam o nariz. Muitas vezes eu cheirava a diarreia dos bezerros, praga comum nos recém-nascidos. Andava de calças velhas e sweat shirts rotas. Também costumava andar de gorro porque o meu cabelo estava sujo e oleoso devido ao suor e ao pó da terra. O retrato perfeito de um camponês.
Foram tempos muito bons estes na quinta. Nada se compara a guiar um tractor a uma Segunda-feira de manhã. No meio de um montado alentejano para ir alimentar o gado. A ver o nascer do sol e a sentir o frio da madrugada que pela manhã se vai esvanecendo.


Dormia feliz num anexo sem televisão e internet. Com um aquecedor e uma cómoda ao lado da cama. Ia para a cama por volta das 22 horas. A austeridade no seu esplendor. 
Quarta-feira à noite ia para Lisboa e começava outra vida.
Ficava a dormir na tal Pensão Milanesa, a residência de estudantes situada em plena Praça da Alegria, junto aos Restauradores.
Foi uma experiência muito forte e enriquecedora. Fiz grandes amizades com pessoas livres, divertidas e interessantes. Principalmente franceses. Pessoas com um espirito generoso, simples e uma excelente base de conhecimentos em várias áreas. Quem diz que os mais novos não sabem nada?
E fartávamo-nos de fazer coisas e passear!  
Por vezes, saiamos de Lisboa durante três ou quatro dias fora e viajávamos por Portugal inteiro de norte a sul. Caminhamos sozinhos em praias desertas na zona de Vila Nova de Mil Fontes e subimos à Torre na Serra da Estrela. Fomos ao Porto e vimos as ondas gigantes na Nazaré. Muitas vezes, eu era o guia e lá ia mostrando o meu país com orgulho. Mas também fui a sítios que nunca tinha ido.
No solstício inverno, dia 21 de Dezembro de 2014, fomos ao cais palafítico na Comporta e vi o por do sol mais bonito da minha vida.
 
 
Às Quintas-feiras, costumávamos íamos para um Bar na Mouraria e dançávamos com alegria num ambiente a fazer lembrar um bar mexicano misturado com santos populares. Tínhamos sempre o nosso cantinho para onde atirávamos os casacos e as malas. E o grupo rapidamente se alargava com pessoas que íamos conhecendo ou os meus amigos portugueses que se iam juntando.
Na residência, era como morar num manicómio intercultural. Várias línguas a serem faladas, histórias, gritos e gargalhadas. Não havia casas de banho privadas. Apenas 3 no corredor. Partilhadas por 12 selvagens. O consumo diário de papel higiénico andava nos 400 rolos. Na banheira, o pé-de-atleta era tratado por tu.
A cozinha era o espaço comum e lá nos encontrávamos e convivíamos.
No lava-loiça, os pratos acumulavam-se por vezes a alturas mais altas que o Evereste.
A toalha da mesa, cheia de marcas de chávenas e queimaduras de cigarro, estava habitualmente coberta dos mais variados objetos. Copos, cinzeiros, headphones, telemóveis, mapas, livros, comida do dia anterior ou algo tão bizarro como um duende de porcelana. Um moleskine aberto mostrava um texto ou desenho de alguém.
Uma vez o frigorífico começou a cheirar mal. Um saco de carne picada putrificava há vários dias nas prateleiras. O cheiro era tão forte que ainda hoje me pergunto como não atraímos abutres ou o pessoal de alguma agência funerária.
E apesar de todos estes ataques directos à ASAE vivíamos bem. A felicidade fazia o ambiente e não o contrário.  
Nestes dias em Lisboa, também frequentava as aulas de piano e pintura durante várias horas. Desde Janeiro de 2014 que tinha começado a praticar e andei o ano todo a cultivar a aprendizagem destas artes.
A excitação apoderava-se de mim nesses momentos. Estava realmente a aprender algo novo. Algo que me permitia expressar as emoções de forma diferente e passar um tempo de verdadeira qualidade e satisfação.    
Estava tão interessado no processo artístico, que no inicio de 2014, iniciei o Blog Artes e Tartes. Um espaço dedicado a compreender o que é a arte e como se forma um artista. De onde vem a inspiração.  
Depois, aos sábados ia para a casa do meu pai ao pé de troia e lá ficava a organizar as minhas papeladas, a pintar, a praticar piano, correr, andar de bicicleta e descansar um pouco também.
A Segunda-feira estava a chegar e tudo ia recomeçar outra vez.
Antes destes 5 meses, e durante 2014, tinha andado muito focado nas tais artes e também no trabalho agrícola em Portugal. Fui a vários congressos, formei uma sociedade agrícola e visitei muitas quintas em Portugal. Estava determinado a conhecer o sector e a tentar investir nele. Essa vontade ainda se mantém.
Em 2013, tinha terminado a minha Licenciatura em Agricultura em Inglaterra. No Royal Agricultural College em Cirencester. Foram dois anos a aprender tudo do zero e onde mais uma vez fiz vários amigos estrangeiros. Também passei muito tempo sozinho o que foi bom porque estudei, li e cultivei-me bastante. Acabei o curso com boas notas e acabei por me envolver em alguns projetos de investigação.
Na Universidade de Agricultura também fazia muito desporto. Fui o treinador e capitão da equipa de futebol de 11, mas também tinha que lavar os equipamentos. Aos domingos de manhã, ia para uma lavandaria no centro da vila, punha moedas em 3 máquinas e ficava ali sentado a estudar, enquanto os equipamentos todos suados e enlameados rodavam violentamente no tambor. Depois de lavar, colocava os equipamentos encharcados para secar. 15 calções, 15 t-shirts e 15 pares de meias. As máquinas de secar abanavam tanto que pareciam estar vivas e querer sair a correr rua fora. 


Conseguimos não acabar em último e ainda marquei uns golos. Mas foi nessa altura que percebi que o fulgor da juventude já não era o mesmo. Aos 30 anos, é simplesmente impossível correr atrás de miúdos de 18!
Como não tinha muito dinheiro, só almoçava fora da cantina duas vezes por semana. Uma vez ia comer peixe ao restaurante de sushi no centro de Cirencester e na outra um bife com batatas fritas a um restaurante chamado Made by Bob. Eram momentos de felicidade. A qualidade da cantina da universidade era precária e dei por mim a comprar regularmente chocolates, batatas fritas e bolachas para ter na gaveta da mesa de cabeceira. Passei momentos decadentes a comer chocolates e a fazer streaming dos jogos do Benfica. Enquanto o inverno Inglês fazia das suas lá fora.
No verão de 2012, a meio do curso, decidi que precisava de reforçar o meu conhecimento do trabalho no terreno e fui trabalhar para uma quinta na Austrália. Em Stanhope, Victoria State. Uma terra no meio do nada a 6 horas de autocarro de Melbourne. Uma coisa era fazer exames na Universidade e trabalhos de grupo. Outra era ir para o terreno.
Foi a minha primeira experiência numa quinta e correu tudo muito bem. Mais uma vez em regime de muito trabalho e pouco conforto. Fiz muitos amigos e aprendi coisas novas. De madrugada, pelas 5 da manhã, e ao final da tarde, ia buscar as vacas para a sala da ordenha. Ordenhar é uma das rotinas mais duras que vi na minha vida. Faço uma vénia a quem está no sector e luta todos os dias para ganhar uma margem ridícula…
No resto do dia fazia as várias rotinas de uma quinta: fazer vedações, cortar lenha, semear campos e matar galinhas.


Nesses dois meses também aproveitei para visitar Sidney e outros países da região como a Malásia e a Indonésia. Um bom amigo local, que tinha conhecido nesse ano em Inglaterra, recebeu-me na sua casa em Jacarta. Fui recebido como um rei. E enquanto a sua família estava no ramadão eu era presenteado com verdadeiros banquetes. Vi o jogo Portugal-Espanha, da meia-final do Euro 2012, numa casa perdida algures em Bali. Assisti a um casamento vestido a rigor.
Na altura que acabei o tal curso de Agricultura em 2013, decidi ir conhecer a América do Sul.
Primeiro para trabalhar durante um mês. Numa quinta na Argentina. E depois para conhecer o continente de ponta a ponta.
A Mafalta era uma quinta situada a algumas horas norte de Buenos Aires. E apesar de ser um local dominado por um dono tirano, foi um local onde voltei a ter grandes experiências. Íamos ao campo apanhar cavalos selvagens, matávamos porcos para comer, fazíamos pão todos os dias e foi também lá que comecei a desenvolver o gosto pelas artes. As paredes dos quartos, da cozinha e da casa-de-banho da quinta estavam repletas de desenhos, pinturas e frases inspiradoras.
Estávamos em Setembro de 2013. E depois de 25 dias na tal quinta da Malfata, viajei com o meu irmão e mais um amigo por todo o continente Sul-Americano. Vimos a Garganta del Diablo nas cataratas do Iguaçu. Navegamos junto ao farol do fim do mundo no Canal de Beagle em Ushuaia. Visitamos as casas do poeta Neruda no Chile. Descemos a estrada da morte, de bicicleta, em La Paz na Bolívia. Vimos o nascer do sol no Salar do Uyuni. Subimos até à cidade perdida de Machu Pichu no Perú.


Foi uma viagem muito marcante. Tive momentos que despertaram em mim uma maior consciência social e por tudo o que nos rodeia, o gosto pelas artes, um maior auto-conhecimento e respeito pela natureza. Foi uma viagem de descoberta. A melhor da minha vida.
Entre 2004 e 2011, durante os anos de trabalho em multinacionais, aproveitava as férias e viajei para outros locais do mundo como o Sri Lanka, o Omã, Polónia ou Bulgária.
Em 2006 fui de carro até Marraquexe em Marrocos.
Ainda em 2006 ganhei um prémio de vendas na empresa em que trabalhava e fui ver um jogo do Mundial na Alemanha. O Portugal-Inglaterra dos quartos do final. Partimos numa sexta de manhã e voltamos domingo. 50 horas seguidas acordado e uma tarde gloriosa de futebol em que o Ronaldo arrancou a expulsão do Wayne Rooney, e passou a ser odiado em todos os estádios Ingleses.
Em 2004 fiz um interrail sozinho pela Europa. Uma epopeia de comboio que me levou a lugares míticos como Amesterdão, Berlim ou Praga. Conheci pessoas estranhíssimas em lugares estranhíssimos. Quando se viaja sozinho, todos os malucos vêm ter connosco.


 

Em 2003, vivi 6 meses na Dinamarca ao abrigo do programa Erasmus. Foi a primeira que vez que morei sozinho. 6 meses surreais com bastante festa, mas onde também me deu para conhecer a mentalidade e cultura Escandinavas. Algo com o qual ainda hoje me identifico e faz parte de mim. A igualdade social do welfare state e o civismo das pessoas marca qualquer um. Depois têm a falta de sol mas isso é outra história. Nós temos a mais. E isso também pode fazer mal.
O meu pai sempre cultivou o gosto de viajar em família e mais ou menos de 3 em 3 anos, entre 2000 e 2009, levou-nos a fazer 3 viagens. A primeira foi ao Brasil, depois à Croácia e a última um raid pelo Báltico: Suécia, Finlândia, Estónia e Rússia. Visitei o grande Hermitage em São Petesburgo e vi o sol durante a noite em Estocolmo.
No verão de 2002 fui trabalhar para uma empresa em Madrid. 2 meses sozinho enquanto o verão se festejava em Portugal. Na altura o currículo é que interessava. Visitei os grandes museus de Madrid e o Convento do Escorial a norte da cidade. Sem palavras. Tirei uma foto com a Taça da Liga dos Campeões que o Real Madrid acabara de ganhar com um grande golo de Zidane.
Por outras ocasiões, fosse em trabalho ou com família e amigos visitei, Paris, Barcelona, Genebra, Roma, Londres e Bruxelas. Ando nestas cidades completamente à vontade e conheço os principais pontos de referência como restaurantes, estações de comboio, monumentos. Já fui aos Açores e Madeira.


Mas voltando ao início...
Por esta altura, no ano passado, embarquei numa viagem rumo à Ásia. Foi no dia 23 de Janeiro de 2015.
Mas esse não foi o primeiro dia de viagem. Essa já tinha começado há muito, muito tempo.
Às vezes acordo e não sei onde estou.  

(to be continued)





 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Nepal





Situado entre os dois países mais populosos da terra, a China e a Índia- com quem mantém boas relações -, o Nepal  é um pequeno país, com cerca de 1,5 vezes o tamanho de Portugal. Em 1960 a população deste país era de 10 milhões de habitantes, mas atualmente esse valor já atingirá os 30 milhões. Mas o Nepal é um país muito jovem  considerando que 35% da população tem menos de 15 anos. Nesse aspeto faz uma grande diferença com  Portugal onde essa percentagem é de 15%. 

O seu produto interno bruto é cerca de um décimo do português significando que a riqueza produzida per capita (considerando que a população é  três vezes maior) é cerca de 30 vezes inferior à portuguesa. É um país marcadamente rural onde a agricultura ocupará cerca de 70% da população ativa.

O Nepal é  geograficamente muito diversificado:1)  as terras baixas, na fronteira com a Índia, onde está a principal riqueza agrícola; 2) os vales entre os 1000 e os 4000 metros de altitude onde se situa Katmandu; 3) a alta montanha na cordilheira dos Himalaias que fica na fronteira com o  Tibete (China) e onde se situa o Monte Everest, o pico mais alto do Mundo.

O Nepal tem a única bandeira do mundo que não tem a forma de um quadrilátero. É composta por duas bandeirolas representando dois ramos familiares  de antigos governantes. A cor azul da bordadura representa a esperança e o carmesim é a cor nacional do Nepal e a predominante na roupas que eles usam. Os símbolos da bandeira representam, em baixo o Sol e, em cima, a Terra na hora do crepúsculo 
.
Foi no Nepal, em Lumbini, que, há 2500 anos, nasceu Sidarta Gautama, um príncipe que aos 35 anos renunciou os bens materiais e, através da meditação, atingiu o nirvana, um estado de paz mental liberto da inveja, da ignorância, do orgulho e do ódio. E a partir daí,  até morrer aos 80 anos, passou a divulgar os seus ensinamentos, passando a ser conhecido como Buda.

O Nepal tem muitas etnias e  muitas religiões, sendo o hinduísmo a predominante.




domingo, 29 de março de 2015

Laos. Uma viagem pelo fantástico.

Havia caca de vaca por todo o lado. Poias gigantes. Cada uma do tamanho de um bolo rei. Muitas bem fresquinhas ainda. Mas isso não impediu que o jogo de futebol fosse mesmo ali. Estacionamos as motas e ficamos para jogar a peladinha do final de tarde. Quando o sol já estava acalmar a sua raiva e até soprava uma pequena brisa.

O cenário era épico. Uma planície no meio de um vale. Ao fundo, duas colinas ajudavam o sol a pôr se. Um sol vermelho como o da bandeira do Japão. Dezenas de crianças a jogarem vólei, futebol e futvolei. Todos equipados a preceito com as camisolas de grandes clubes europeus: Chelsea, Real Madrid, Manchester United, etc

O jogo começou. Depois de muita confusão inicial o Lourenço recebeu a bola na linha. Tirou dois adversários do caminho com uma finta rápida. Circundou uma poia com um aspecto fresco e recente. Flectiu para dentro da grande área. Os locais olhavam estonteados. Viu-se cara a cara com o guarda-redes...

Levantou a cabeça e fez o golo! A bola estava lá dentro. 1-0. Correu em tronco nu em busca dos companheiros de equipa. A nossa glória futebolística chegava finalmente. Tarde mas chegou.

Comprar as motas no Laos foi a melhor ideia que tivemos nesta viagem.

Nunca tinha andado tanto de mota. Nunca tinha atravessado um país de mota. E não  tenho muita experiência a guiar motas. Especialmente manuais!

Ao início tive algum medo. E recebia mensagens de família e amigos para não o fazermos. O perigo era eminente. Tinha tudo para correr mal. Mas correu bem. Aprendi algo novo. E é para isso que estas viagens de mochila às costas também servem. Para quebrar limites e aprender. Experimentar. Viver a adrenalina em ambientes inóspitos.

É que no Laos não estamos a falar de estradas largas e com bom alcatrão como temos na Europa. Há muitos buracos. De todos os lados surgem crianças e cães a correr. Galinhas, porcos, vacas e búfalos passeiam sem pudor. Bancas de comerciantes e mercados formam-se à beira da estrada. Não há distinção entre o que é passeio e alcatrão.

A situação mais caricata que tivemos foi já mais para o fim da viagem.

Era de noite e estávamos a poucos kilómetros de chegar ao destino.  

É neste momento que numa descida, está um homem deitado no meio da estrada. Mesmo no meio!!

Não temos explicação para o que ele estava ali a fazer. Mas desviámo-nos a tempo. Será que ele ainda lá está?

O perigo espreitava por todo o lado.

Mas isso não me impediu a mim e ao meu fiel companheiro de estrada , Lourenço Macedo Santos  (ex artista no Poço da Morte da Feira Popular), de fazer esta jornada épica atravessando o Laos desde o Sul até ao Norte.

A escolha das motas não foi difícil.

Queríamos motas não muito poderosas em termos de motor mas que também não fossem nenhuns triciclos.

Tinham também que aguentar com o nosso peso e das malas.

E era essencial que tivessem uma mecânica de fácil compreensão para as garagens locais.

Por isso enveredamos por duas peças de museu Vietnamitas. Dois tanques de guerra capazes de subir ao Evereste.

Duas motas a que chamamos Julieta e Judite.

Colocamos cartazes pelas ruas em Pakse, no sul do Laos, e em poucos dias fizemos o negócio. Só faltava partir.

Os grandes números desta jornada de contornos bíblicos são:

- Modelo e Cilindrada das motas: Honda Win 110 cc.

- Ano de construção: 57 A. C.

- Número de donos anteriores: 168, incluindo dois cães.

- Operações Stop - 0

- Quedas - 1

- Pneus rebentados em andamento - 1

- Kilómetros - 1600 (o mesmo que ir de Chaves a Faro e voltar. Sempre por estradas secundárias).

- Mecânicos visitados - pelo menos 15,

- Mosquitos engolidos: 12,

- Número de camas diferentes em que dormimos: 14,

- Boleias a raparigas do Norte da Europa: NA

Atravessar um país assim não é o mesmo que o fazer de autocarro.

Vemos e sentimos tudo o que se passa nas ruas.

De manha saiamos do quarto, púnhamos as malas na traseira da mota bem presas com uns elásticos e arrancávamos.

Há poucas sensações de liberdade tão fortes e intensas como viajar assim de mota. Desconhecia completamente o conceito e  talvez seja uma nova paixão. Uma das grandes vantagens é que paramos onde queremos e às horas que queremos. Não é isto que é viajar também?

Passamos 30 dias de mota no Laos e nunca abrimos um mapa. Não tínhamos obrigações de estar em lado nenhum e por isso nunca estivemos perdidos. Ou então estávamos sempre, depende da perspectiva. Só sabíamos que era para norte. Todos os sítios onde fomos descobrimos por conta própria ou fomos aconselhados por estrangeiros ou locais.

Conhecemos pessoas novas todos os dias. Franceses, Espanhóis, Italianos, Americanos, Alemães etc e até alguns Portugueses. 

E as dificuldades que experimentamos no início da viagem com os asiáticos já se dissiparam. Rimos e brincamos com os locais. Aprendemos muitas palavras e expressões. Dançamos com eles. Comemos e bebemos. E não só com pessoas do Laos mas também com Japoneses, Coreanos ou Tailandeses. Afinal estas pessoas também tem um coração e nem tudo gira tudo à volta do dinheiro. Os momentos que passamos com os asiáticos são fantásticos! Divertimo-nos à séria!

Para alguns estrangeiros que conhecíamos na estrada éramos verdadeiros heróis. Dois malucos a subir o Laos de mota.

Mas para outros não passávamos de meros turistas.

Porque na estrada também descobrimos que ainda há verdadeiras epopeias a serem feitas pelo mundo inteiro...

Verdadeiros desafios ao espírito humano que me fizeram pele de galinha...

Como o Italiano que está a dar a volta ao mundo numa Vespa. Ou o alemão que foi a pé desde Hamburgo a Teerão.

Mas pronto tem que se começar em algum lado e isto foi mesmo um grande desafio. Houve momentos em que não sabia se íamos aguentar ou conseguir chegar ao fim.

Andamos em estradas no meio da selva. Subimos montanhas em terceira com o motor quase a rebentar. Percorremos trilhos cobertos de areia, pedras e relva. Atravessamos pontes feitas em bambu com um metro de largura e tábuas de madeira quase soltas. Andamos com chuva e também debaixo de um sol de 40 graus. Com o vento a bater na cara. Descobrimos cascatas e lagoas de deixar qualquer um de queixo caído. Demos mergulhos épicos.

Tudo o que se escreva ou diga sobre o Laos não consegue fazer jus à beleza do país. Acreditem quando digo que nunca tinha visto nada assim. É simplesmente deslumbrante! Não tem explicação possível.

A pergunta agora é quantos anos ainda durará este paraíso? A China quer abrir vias comerciais para o Vietname e Tailândia. E há grandes grupos turísticos já a olhar para a região também. Temo pelo futuro da natureza no Laos.

No final do mês vendemos as motas e ainda fizemos bons negócios.

Nunca vou esquecer o Laos. E tenho a certeza que vou voltar. 

Por vezes ia correr de manhã e via as cidades a acordar. 

Durante o dia o ar do país é amarelo e alaranjado. Uma atmosfera quase dantesca.

Fizemos desporto, arte e novas amizades. 

A comida é super fresca e saudável. Quase não comemos carne. A alimentação é feita à base de frutas e legumes.

Dormimos em bungalows no sopé de montanhas e à beira de lagos.

No final gastamos uma ninharia. Cerca de 700 € no mês inteiro.

Voltei hoje para Banguecoque e estou neste momento sentado num quarto de hotel perto do aeroporto a escrever este texto. Parece que foi tudo um sonho. Ainda bem que o pude viver. Porque o sonho comanda a vida e quando se confunde com a realidade é porque estamos no caminho certo.

Próxima etapa: Norte da Tailândia e ver se nos deixam entrar no Myanmar!

Think about it!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

No Reino do Cambodja

6.00 - O despertador toca de forma crescente. 

Onde estou? Ah ok, é um dormitório misto de 6 pessoas em Bangkok. 

Levanto-me e começo a arrumar as coisas tentando fazer pouco barulho.

Tenho que mexer em vários sacos de plástico. Daqueles que fazem barulho como uma rádio fora da sintonia. 

O Japonês mexe-se e levanta a venda. Provavelmente está a ver se alguém lhe está a roubar a mala.

6.03 - Já fora do quarto com a mochila pousada no chão, a arrumação ainda está por começar. 

Vou a uma varanda com grades que existe no fim do corredor. O céu está nublado. Nas ditas grades está pendurada toda a minha roupa. 

"Merda, devia ter lavado a roupa antes de ontem!" 

Está a ficar tarde. A roupa vai toda  molhada para dentro da mala. A fermentação vai começar. 

6.08 - Entro na casa de banho para tomar um duche. 

Atrás de mim vem a mochila grande e a pequena. Estou sozinho, tenho que andar com tudo comigo senão podem roubar-me as coisas. 

A casa de banho apresenta mínimos olímpicos de limpeza. Quase não há manchas de caca nas sanitas. 

De repente lembro-me que não tenho toalha. 

"Merda, não devia ter atirado fora a toalha que tinha roubado no hostel em Hanoi!"

6.12 - Ligo a torneira. Não era esta. Tento outra. Parece que era um regulador de temperatura. Também não era. Vejo um botão numa caixa branca. Ao pressioná-lo, gloriosa água fria cai do chuveiro. 

Lavo os dentes. Lavo as orelhas. Lavo o corpo com aquela água fria abençoada.

6.19 - Estou vestido e com a mochila às costas. Agora é só descer 5 andares de escadas até à recepção, levantar a caução de 6 € da chave e partir. 

"Será que me vão devolver o dinheiro?" 

A palavra caução cria arrepios até ao Chuck Norris. 

6.21 - Um recepcionista que nunca vi antes, dorme por detrás do balcão numa sala silenciosa e iluminada pela luz da manhã.  

"Hello", digo-lhe em voz alta. 

Ele acorda e sem pestanejar mais dá-me o dinheiro da caução. Sem eu lhe pedir nada. 

"Teve medo e deu-me logo o dinheiro."

Sou um duro.

6.22 - Tenho fome. E exaltado pela minha nova condição de duro, compro comida ali mesmo na recepção. 

Duas bolachas Oreo, duas bananas e uma garrafa de água meio litro. 

Os duros é assim. 

6.25 - Saio para a rua. O céu continua cinzento. 

Falta 1 hora e 5 minutos para que o autocarro que me vai levar ao Cambodja parta. 

Faço umas contas de cabeça sobre quanto tempo demora a chegar ao terminal. Daqui até à estação de metro são 7 minutos a pé.  Mais 38 minutos no comboio. Mais 10 minutos numa moto táxi. 

Ao todo 55 minutos. 

Pode correr mal. 

Começo a andar a pé para o metro. 

Meto a mão no bolso para ver se tenho o passaporte. 

Preparo a quantia exacta para o metro. 

Ajeito a posição da mochila. 

Como uma banana. Não há caixote para pôr a casca. 

Abro as Oreo. 

Abro a garrafa. Bebo água. Fecho a garrafa. 

Ainda tenho a casca de banana numa das mãos.

6.32 - Entro no Metro. Pedem me para abrir as malas e revistam-nas. 

Não se brinca em Bangkok. 

Desço dois lances de escadas rolantes e chego a um túnel com 3 aberturas. 

"Não te percas agora."

6.34 - Chego à máquina dos bilhetes. 

Mudo o botão para "English". 

Escolho a estação Chatuchak Park. 

Insiro a quantia exacta. 

6.36 - Estou num túnel e ao longe vejo pessoas a vir na minha direcção.

"Acabou de chegar um metro, CORRE!"

Na curva antes de chegar à plataforma ouço o sinal sonoro. As portas vão fechar. 

Num último esforço de Rosa Mota tento ir contra as portas que ainda estão meio abertas, na esperança que alguém veja e as reabra. 

Bad luck. Fecharam-se mesmo. O metro parte. 

Fico sozinho na estação. 

6.42 - Chega um novo metro. Faltam 48 minutos para o autocarro partir e pelas minha contas 50 para chegar lá. 

Agora é relaxar e esperar 40 minutos. Ponho os meus phones e ouço música. 

7.20 - Saio do metro. Faltam 10 minutos para o autocarro e ainda estou longíssimo!! 

Pânico! 

7.22 - Chego à rua. Chove a potes. Chegou a monção. 

Não quero saber. 

Preciso de alguém numa moto-táxi que me leve para o terminal. 

Um homem velhote trava nesse mesmo segundo e diz "Need motorcycle?". 

Subo para a mota com a mochila nas costas e digo no meu melhor Tailandês: 

"To Mon Chi terminal, QUICK!!"

7.35 - Chego ao terminal. 

Estou todo ensopado. 

Tiro o capacete. 

Pago ao homem da mota. 

O autocarro partia do lugar 106. Ainda tinha de correr mais. 

"Já deve ter partido, não tenho hipótese." 

Arranco pelo meio das pessoas que olham para os horários dos autocarros de forma plácida.. Os meus ténis chapinham.

"Já falta pouco!!"

7.37 - Chego à baía 106 e tudo está tranquilo. 

Há pessoas locais  a comer e a vender maçarocas de milho. 

Backpackers a mexer no telemóvel. 

Um casal dorme num banco. 

Penso para mim quando vejo o autocarro parado:

"Que manhã calma, o dia já está a correr bem."

Ainda não partiu apesar de serem 7.40 e já passarem 10 minutos da hora de partida.

Olho para o bilhete que tinha no bolso.

Afinal era só às 8.

P.s. Dez horas depois cheguei ao Cambodja. Sozinho. Gostei muito do país. Pessoas simples e a falar algum inglês. Calor. Temperaturas acima dos 35 graus. Boa comida e barata. Conheci uns argentinos muito simpáticos e fomos jantar fora. Na noite a segue um casal de Portugueses e uma lenda do Jazz que ensinou muitos artistas famosos. Visitei os templos de Angkor Wat e os Killing Fields. Estive em Siem Reap e na capital Phnom Penh. Andei muito de bicicleta. Ao todo fiquei uma semana. Talvez volte.

Amanhã chegamos ao Laos num autocarro que vai demorar 12 horas. Na fronteira vamos comprar motas e subir até ao norte do país. Até Luang Prabang.

Think about it!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Vietname dá e Vietname tira.

"Não se compra coisas com o estômago vazio". Dizia o Tiago Casais.

Certo dia também afirmou: "O amanhã prepara-se amanhã!"

Eu e o Lourenco ouviamos e abanávamos a cabeça em sinal de aprovacão.

Filosofias de vida.

O André Mateus, Junior para os amigos, também proferiu muitas frases vencedoras durante os 15 dias no Vietname:

" Tenho uma densidade capilar invejável."

" Ja perdi a luta contra o meu corpo há muitos anos."

Ou a minha preferida: "O Facebook nunca viu o Sporting ser campeão."

Foi neste espírito de descoberta filosófica que 4 amigos se reuniram para descer o Vietname entre os dias 5 e 20 de Fevereiro de 2015.

Desde Hanoi ate Ho Chi Min.

Do inverno do Norte até aos trópicos do Sul.

De comboio e autocarro.

De mochila às costas.

2.000 kilómetros pelo meio de arrozais cor de esmeralda. Pessoas com chapéus bicudos. Cidades cuja banda sonora era um buzinar constante.

O grupo era improvável.

4 velhos na casa dos 30, Todos nascidos em anos diferentes e com muito pouco em comum. Desde a altura em cms passando pela personalidade. Algo podia correr mal. A segunda guerra do Vietname estava prestes a eclodir.

Mas nada disso aconteceu. O grupo funcionou às mil maravilhas. Todos nos completamos.

Todos tivemos o nosso papel.

O todo foi maior que a soma das partes.

Mas então... afinal que país é este? Quem é e o que é o Vietname?



Actualmente o pais tem 90 milhões de pessoas. O crescimento demográfico é galopante e os casais não podem ter mais de 2 filhos senão tem que pagar pesadas multas ou podem mesmo ser despedidos do emprego.

80% da populacão é budista.

A dicotomia Norte-Sul é igual a Portugal. No Norte trabalha-se. No Sul perguiça-se. No Norte ganha-se 100 e gasta-se 50. No Sul ganha-se 100 e gasta-se 200. No Norte faz frio. No Sul faz calor.

O herói nacional chama-se Ho Chi Min, líder do Partido Comunista e do Governo Vietnamita entre as décadas de 30 e 60 do século XX. Era ele que estava responsável pelo Governo quando o país ganhou independência à Franca no pós Segunda Guerra Mundial. Foi também ele que liderou a resistência contra os Americanos na Guerra do Vietname.

A moeda oficial é o Dong. Parece o nome de uma personagem do Tintin. Com 1 euro compram-se 24.000 Dongs. O Vietname foi o primeiro país do mundo que visitei onde não existem moedas. Apenas notas.

Com 100.000 Dongs, cerca de 4 euros, come-se uma refeicão deliciosa. Com 100.000 Dongs também se dorme num hotel/hostel digno. O duche pode eventualmente ser frio. Também pode acontecer a porta da casa de banho não abrir. As vezes o quarto pode cheirar mal e estar cheio de mosquitos.

E é precisamente por este motivo e mais alguns que o título deste post é "Vietname dá e Vietname tira"...

O Vietname deu-nos comidas maravilhosas. Noodles e spring rolls. Bun Cha e Pho Bo. Molho picante delicioso. Arroz. Vegetais. Fruta. Sopas e caldos. Espetadas. Rebentos de soja. Sinal mais para a comida Vietnamita.

O Vietname deu-nos motas e bicicletas.

Vou tentar explicar. Não há uma única rua ou estrada no Vietname que não tenha dezenas, centenas ou milhares de motas. O único sítio onde não há motas é dentro das casas das pessoas e mesmo assim já faltou mais! Só em Hanoi, a capital do país, há cerca de 4 milhões de motas!?

Quando decidimos alugar motas foi como entrar num Grande Prémio de Moto GP. Estradas apinhadas de motas e nós os quatro a deambular no alcatrão em busca de um espaço.

Imaginem a sensação sensorial de estar parados num semàforo. E quando a luz passava a verde, dezenas de motas aceleravam ao mesmo tempo. Nesse exacto momento parecia que estávamos na grelha de partida em Gerez de La Frontera!

O Vietname deu-nos o espectáculo da natureza. Rios. Deltas. Montanhas. As grutas em Dong Hoi. Cavernas gigantes que serviram de hospital durante a guerra. Estalactites de cortar a respiracão. Em Halong Bay vimos as centenas de ilhas montanhosas que inspiraram o filme Avatar. Talvez esperasse um pouco mais mas valeu a pena visitar.

O Vietname deu-nos também o espectáculo do caos urbano. Milhares de pessoas em constante movimento. Cada bocado de passeio é ocupado por um comerciante. Uma imensidão de barulhos, cheiros e cores. A ásia no seu esplendor.

O Vietname deu-nos a cidade proibida de Hue. Os mercados e as casas amerelas de Hoi An. E o misticismo de Saigão. Emocionámo-nos no museu da guerra quando percebemos que os Alemães não foram os únicos a fazer um Holocausto.

Os Americanos também o fizeram no Vietname... Está tudo documentado para quem se quiser informar. Ainda agora a escrever estas palavras me emociono. Todos os 4 sentimos o mesmo.

Mas o Vietname não dá apenas... também tira... Ainda é um pais rude. Talvez o possa comparar à Bolivia na América do Sul. Foi duro andar pelo país de mochila as costas. Ainda é tudo muito selvagem. O que no fundo também e bom para sentir a verdadeira aventura mas não facilita as coisas...

As pessoas só falam com os estrangeiros por causa de dinheiro. Venham cá falar de racismo... A agressividade comercial e negocial deste povo é muito superior ao Norte de Africa por exemplo.

São totalmente direccionados para sacar o máximo de dinheiro custe o que custar. Nem que para isso tenham de mentir ou enganar.

Um taxista não da informacões se não quisermos usar os seus serviços.

Nas estacões de comboio pediamos informacões nos guichets e olhavam para nós com desprezo fazendo gestos com a mão para nos afastarmos. Nestas alturas olhavamos uns para os outros e diziamos: "Pah este pessoal está-se a passar!"

A poluicão nas cidades é sufocante. Os níveis de dióxido de carbono são intoxicantes. Os locals andam de máscara na cara. Parece que há cirurgiões por todo o lado.

As condicões climatéricas são difíceis e diversas. Frio e calor.

Ha poucas pessoas a falar Inglês. Ninguém sabe dar indicacoes. Safe-se quem puder!

Péssimo café. Isto apesar de logo seguir ao arroz, o café ser a segunda matéria prima que mais produzem.

Há casas de banho onde só se entra se tivermos visto para o Ruanda ou treino de austronauta na NASA para não nos mexermos sem tocar em nada. Locais simplesmente nojentos...

As praias não são nada de especial. Viva a Costa Alentejana! Em Hoi An ainda demos um mergulho. Mas em Nha Trang a praia cheirava a merda. E a Russo. Sacrificamos um carneiro e prometemos nunca mais lá voltar nesta vida.

E assim se passaram 15 dias no Vietname.

O balanço é positivo. A Asia é um misterio por descobrir. Não é em duas semanas que se pode compreender a mentalidade e cultura destes povos milenares. Mas espero lá chegar.

Next: Cambodja!

Think about it!



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Austrália - Uma nova aventura

Desta vez não ia ser tão fácil partir... pensei eu sentado no avião que me ia levar para a Austrália.

O Outono em Portugal foi-me grato. O recente estágio na Quinta da Abegoaria, as aulas de pintura e piano, a estadia na pensão milanesa, a vida familiar e com os amigos. Tudo correu bem nos últimos meses. Aprendi e vivi muito.

Mas mais uma vez fiquei surpreendido...

Surpreendido com a facilidade que o acto de partir representa para mim. E o bem que soube. O mundo era outra vez um lugar cheio de possibilidades novas.

E foi com este sentimento que aterrei passadas umas horas na Austrália.

Com a excitação de quem viaja pela primeira vez e tudo é uma nova descoberta. Desde as coisas mais simples até questões mais existenciais. Esta viagem é mais uma aventura para trilhar caminho neste assombroso fenómeno chamado vida.

Esta era a segunda vez que vinha à Austrália.

Na agenda estava planeada uma estadia de duas semanas. A primeira em casa do meu irmão Sérgio em Brisbane. A segunda na quinta do Norm Stone, em Stanhope, norte de Melbourne, onde já tinha estado há dois anos a trabalhar.

A hospitalidade de que fui alvo em ambos os casos não tem explicação. Sou um sortudo e privilegiado neste campo. Ser recebido do outro lado do mundo e ter uma cama com roupa lavada, toalha, comida boa, transfers de aeroportos e terminais de autocarros é muito gratificante.

Brisbane é uma cidade à semelhança daquilo que já tinha visto em Sidney e Melbourne. As pessoas são talvez um pouco mais relaxadas e o clima mais tropical. Chegamos a ter dias de 35 graus. Mas tal como nas outras cidades Australianas, em Brisbane impera a organização e a qualidade de vida.

Há pistas de jogging e de ciclismo, onde todas as manhas, milhares de pessoas praticam exercício. Há parques com zonas de pic nic e grelhas de barbecue gratuitas a disposição de todos. O transito flui com calma e ninguém atravessa a passadeira sem o sinal estar verde para os peões. Os transportes chegam a horas. Não há lixo nem beatas no chão.

Pela cidade inteira encontram-se sinais a dizer " Se encontrou alguma coisa estragada ligue para este número para podermos arranjar". As pessoas tem um sentimento de civilização e ordem na Austrália que é único no mundo. Talvez no campo em Inglaterra ou na Escandinávia tenha encontrado algo parecido.

Esta qualidade de vida é possível porque a Austrália é um dos países mais ricos do mundo. Tem muitos recursos e o governo suporta e subsidia o bem estar das pessoas. O IVA de todos os bens é de 10%. Ganha-se bem e há oportunidades.

O meu irmão Sérgio e a namorada Daniela moram no centro de Brisbane. O Sérgio esta a concluir os seus estudos no Masters em Sustentabilidade Ambiental na Universidade de Queensland e a Daniela trabalha numa loja, onde recebe por hora aquilo que um medico, engenheiro ou gestor não recebem em Portugal.

Eles estão bem integrados. Recentemente o Sérgio foi convidado para ser professor assistente na Universidade, mais um grande motivo de orgulho para a família Queirós!

Nos 6 dias que estive em Brisbane joguei futebol duas vezes e fiz jogging uma. Fui ao cinema ver o Birdman. Visitei as galerias de arte da cidade e o museu de historia natural. Fomos ao Jardim Zoologico de Lone Pine, um dos 10 melhores do mundo, e confraternizamos de perto com cobras, koalas, cangurus, crocodilos, etc... a vida selvagem na Austrália é imensa e intrigante!

Passamos um dia nas praias da Gold Coast e Byron Bay. Estas praias são simplesmente brutais. Não fossem os tubarões que ali rondam e seriam as melhores do mundo (a seguir a Tróia claro). Nesta semana jogava-se a Taça de Futebol da Ásia (o Euro cá do sitio) e o Open de Ténis da Austrália. Também passamos bons momentos a beber uma cervejinha fresca e a ver desporto.

Depois foi altura de partir de novo. Para a quinta do Norm em Stanhope, estado de Victoria.

Apanhei um avião para Melbourne e depois um autocarro interminável para lá chegar. A quinta ainda está no mesmo sitio e tudo continua igual, ou seja bom.

Sinto-me em casa aqui.

O Norm e a Dawn foram uma grande descoberta e ajuda na minha formação agrícola mas também pessoal. Parece que para o ano estão a pensar visitar Portugal!

O Norm continua igual a si mesmo. Um homem do Renascimento. Curioso sobre o mundo que o rodeia. Um contador de historias. Um cozinheiro de fazer inveja a qualquer chef de um restaurante com estrelas Michelin. Sempre bem disposto. Passamos os dias a conversar, comer, trabalhar e dormir.

Os inúmeros cães, gatos, patos, galinhas e vacas que povoam a quinta são uma delicia para o olhar. Desta vez é verão aqui e há moscas por todo o lado. Na sala da ordenha devo ter engolido algumas...

Mas a realidade social no outback Australiano é muito diferente da realidade das cidades. Há muitos problemas de droga e alcoolismo. As crianças abandonam a escola precocemente. Há gravidezes na adolescência. Há obesidade. E até as badaladas historias de relações incestuosas ou mesmo com animais fazem parte do quotidiano...

No outro dia o Norm contava que havia um rapaz que jogava Rugby e que tinha sido apanhado no acto com um vitelo...

Ora, durante um jogo importante para a classificação final da Liga de Rugby e que podia dar o titulo à equipa, sempre que este rapaz tocava na bola, a claque da equipa adversaria começava a mugir... MUUUUUUUUUUU!!

Num dos últimos lances do jogo, e quando o rapaz se encontrava prestes a marcar um ensaio, a tal claque adversária começou a mugir de forma ainda mais alta e agitada... conseguem imaginar dezenas de pessoas a mugir???

Foi então o rapaz largou a bola, subiu para bancada e começou a distribuir pancada por toda a gente! Foi um sururu!

 Assim vai a vida na Austrália. Next stop já na quinta-feira, dia 5 de Fevereiro: Vietname!

 Think about it!