quinta-feira, 10 de maio de 2012

Animais que falam!

Os animais que habitualmente encontramos nas quintas são de facto engraçados e geram em nós sentimentos de ternura e de regresso à infância. Produtividade e empresas à parte, quem não gosta de ver as vacas pachorrentas a pastar nos campos, as ovelhas aos saltos ou os porcos a escavar raízes e a rebolar na lama?
Temos também patos, cavalos, galinhas, coelhos, veados, javalis, etc todo um conjunto de personagens, cada qual com as suas manias e características.
Muitos destes animais já são inclusivamente estrelas de Hollywood! Quem não se lembra de Um Porquinho Chamado Babe, ou de filmes em que estas espécies falam entre si, quando os humanos não estão presentes? Será que isto acontece mesmo? Será que eles comunicam entre eles e combinam estratégias e resolvem problemas? Como os brinquedos no filme Toy Story?
Eu gosto de imaginar que sim. Que apesar de os sujeitarmos à vontade humana ainda há um espaço só deles em que os humanos não conseguem entrar. Não é como acreditar no Pai Natal, é apenas achar que eles interagem de forma independente à sua maneira, e que os humanos não conseguem lá chegar!
Aqui nas quintas do colégio, há registo de algumas histórias interessantes. Desde vacas que dão mais leite quando ouvem música clássica até uma história de porcos verdadeiramente inacreditável. Uma das técnicas mais comuns de alimentar porcos de forma automática é colocar-lhes umas coleiras electrónicas à volta do pescoço. Consoante a cor, os porcos passam na zona de alimentação, e a respectiva ração cai. Ora, estes senhores descobriram, que a coleira azul dava mais comida durante o dia, e então começaram a trocar as coleiras entre si!! Fantástico!!
Obviamente que estou a fantasiar um pouco em relação à verdadeira inteligência destes animais. Parece estar tudo muito mais relacionado com uma questão de estímulos. Uma questão de prémio ou castigo. Quando a águia Vitória chega ao meio campo do estádio da luz tem lá um bifinho à espera. Quando queremos ensinar um cão a sentar podemos dar-lhe um biscoito para o premiar. Quando se põe vedações eléctricas à volta dos campos de vacas é para elas perceberem que há ali uma dor associada se passarem daquele perímetro.
É a chamada Law of Effect para os animais: uma resposta voluntária associada a uma recompensa é mais provável de se repetir do que uma resposta associada a um castigo.
Mas voltando a Hollywood e ao imaginário de que os animais falam entre si, sempre me questionei qual a proveniência de determinados animais em alguns filmes ou como é que eles eram treinados? Quando o Mel Gibson fez o Braveheart ou quando o Ridley Scott fez o Robin Hood, os animais que vamos vendo nos filmes são contemporâneos daquela época. A verdade é que, com a perspectiva empresarial associada à criação de animais, muitas foram as espécies de animais que foram desaparecendo ao longo dos séculos em prol daquelas mais rentáveis.
Em relação às vacas por exemplo, hoje em dia já quase só se vê Fresian-Holsteins (as malhadas a preto e branco) ou Aberdeen Angus (todas pretas) e outras mais como Limousin ou Hereford. Mas as vacas e os porcos do século XIII ou XIV eram diferentes, por isso onde será que os realizadores arranjam estes animais? Existe em Inglaterra uma grande preocupação com esta questão e há muitos produtores apenas dedicados à criação de espécies raras. Estas espécies são depois rentabilizadas através da venda de carne para restaurantes de luxo em Londres ou através da criação de parques temáticos, tais como mini zoos de animais onde as famílias levam os filhos no verão.
Quando por exemplo o Pai do William Wallace, no filme Braveheart, chega ferido a casa da batalha, transportado por uma junta de bois, tratam-se de facto de bois daquela altura, e dos quatro homens que acompanham a carroça, os dois detrás são criadores e especialistas no tratamento destes animais. E pela informação que recolhi não é nada fácil levar ovelhas, porcos e bois para os cenários de filmagem. Tem que se transportar os animais, levar comida, etc e muitas vezes os animais ficam stressados com a espera. Podem chegar ao local das filmagens às 6 da manhã e apenas filmar passadas 12 horas!
Encontrei também referência a um porco que foi treinado para o filme dos 101 dalmatas, supostamente um que faz cair a Glenn Close (Cruella de Vil) no final do filme. Este porco que tinha de estar sentado para esta cena foi treinado durante semanas para o fazer… porque quem se senta são os cães e fazer um porco sentar-se é quase impossível! Tratam-se de animais bastante inteligentes e só fazem aquilo que querem. Neste caso foi possível fazê-lo com o recurso à Law of effect, premiando repetidamente o animal com maçãs quando ele se sentava correctamente.
Estes animais são de facto fascinantes mas a sua inteligência está longe da nossa. Em termos de emoções já não digo mesmo, podem sentir afecto e sentem sem dúvida a maternidade ou se o dono é bom para eles ou não. Mas no caso das vacas, porcos e ovelhas por exemplo, estes animais não sabem por exemplo o que é a morte. Não têm uma ideia de morte. Enquanto os humanos sabem que vão morrer e sabem as consequências de determinados actos, estes animais não têm essa ideia. Embora seja proibido nos matadouros matar um animal em frente a outro, vários estudos demonstram que estes animais não reagem a esta questão.
São espécies que regem os seus comportamentos devido a questões mais hormonais e menos cerebrais, pois este não se encontra tão desenvolvido. Quando têm fome procuram comida, quando estão com o cio procuram reproduzir-se e quando a hormona do stress (cortisol) actua, podem tornar-se mais violentos ou esperneiam.
 A ciência de facto permitiu-nos conhecer melhor estes animais e trata-los melhor. Por exemplo, em Inglaterra, apenas no século XVIII, terminaram os julgamentos contra animais. Várias vezes havia ratazanas a ir a julgamento por terem comido os cereais num celeiro, ou cavalos que deram um coice a alguém… a pena de morte era muitas vezes aplicada!
Mas enfim, apesar de tudo isto, continuo a gostar de imaginar que os animais falam entre si quando os humanos não estão lá! Da próxima vez que virem um Porquinho Chamado Babe, o BraveHeart ou o Robin Hood, já sabem…
Think about it!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pingo Doce ou Pingo Amargo?

Refugiado no campo em Inglaterra, segui com bastante atenção aquilo que se passou no Pingo Doce no último feriado 1 de Maio. Uma promoção de 50% de desconto directo em factura para compras superiores a 100 € não é todos os dias que acontece.
Como apaixonado pela Grande Distribuição que sou não queria deixar passar ao lado a oportunidade de comentar esta situação de diversos pontos de vista.
Em primeiro lugar, o Grupo Jerónimo Martins é um grande grupo. Fiz a minha formação profissional neste grupo e por isso posso ser suspeito ao fazer esta afirmação mas os factos comprovam-no. É um grupo familiar que foi superando as dificuldades que se lhe depararam ao longo dos anos de forma corajosa e exemplar.
Quando tirei o curso de Gestão na Universidade Católica diversos professores usavam o grupo JM como o exemplo daquilo que não se devia fazer. Na altura estávamos no início do século, entre 2000 e 2004. Nestes tempos foram vários os erros estratégicos do grupo, nomeadamente a questão da internacionalização para o Brasil, que aliada a desvalorização de 75% da moeda Brasileira, quase levou o grupo à bancarrota. O grupo perdeu crédito junto dos investidores e especula-se que apenas a acção da banca, nomeadamente do BES e BCP ajudaram o grupo a sobreviver. Nesta altura o Pingo Doce era ainda aquele supermercado caro direccionado para as elites, o Feira Nova era um Hiper com um posicionamento estranho quando comprado com o Continente ou o Carrefour e o Recheio apanhava pancada da Makro e de outros grossistas no Norte.
O que aconteceu então para que passados 10 anos o Grupo esteja onde está? Porque cresce 2 dígitos em vendas e resultados ano após ano? Porque tem a maior capitalização bolsista dos últimos anos em Portugal contrariando o ciclo negativo do PSI 20? E porque continuam a inovar e a abrir novos mercados e portas como nenhum outro grupo Português? Porque não vendem tudo ao Tesco ou à Wall Mart e vão descansar para uma ilha?
Para mim a resposta, que estive lá dentro, passa pela equipa de Gestão do grupo. O presidente do conselho de administração, o presidente da comissão executiva, os seus filhos, os directores financeiros, marketing, comerciais, etc.. são pessoas com uma grande visão. Uma visão preconizada por Soares dos Santos e ajudada a pôr em prática por pessoas competentes como Luís Palha da Silva e outros consultores externos como Borges de Assunção. Os directores das unidades de negócio conhecem as lojas todas de Portugal e as pessoas que lá trabalham pelo nome próprio. Desde o topo da hierarquia até ao caixa de supermercado, existe uma motivação enorme e um grande orgulho em pertencer a este grupo.
Não são permitidos atrasos nas reuniões. O consumidor é REI. Há uma revista interna no grupo que exalta os feitos pessoais dos trabalhadores do grupo, sejam eles das lojas ou dos escritórios. Lançaram máquinas de cafés e têm uma marca própria que em termos de qualidade pode ser comparada a muitas marcas líder mas muitas vezes quatro vezes mais barata. Têm uma escola de Recursos humanos, onde ensinam as competências que cada funcionário necessita ter para executar a sua função. Acabaram com o Feira Nova e conseguiram mudar o posicionamento de preço do Pingo Doce para um quase Hard Discount, mas possuem lojas com aparência agradável e que em nada se compara ao LIDL e Minipreço. São líderes de mercado no Polónia. Têm excelentes frescos (fruta, pão, carne, etc..),  etc  etc etc etc  julgo que por todos estes motivos e muitos que faltam aqui mencionar são de facto um excelente grupo e um exemplo de gestão para as empresas Portuguesas.
Relativamente a esta acção, devo no entanto dizer que fiquei um bocado surpreendido. A grande distribuição tem vindo a surpreender ao longo dos últimos anos com todos os instrumentos e mais alguns para captar o máximo de consumidores possível, mas nada do que se tinha passado até aqui supera isto. O Pingo Doce mais uma vez inovou mas aqui apareceu uma primeira contradição: esta insígnia tem vindo a comunicar que não faz promoções, nem cartões, nem talões, mas isto é claramente uma promoção, e mais do que isso, é a MAIOR promoção de sempre.
Aqui surge-me a questão: quem vai pagar a acção? Para termos uma ideia do que pode custar uma acção deste género podemos construir alguns pressupostos:
- A insígnia tem neste momento 396 lojas.
- Quanto ao valor gasto, vamos considerar uma compra média de 120 € , porque muitas pessoas não se limitaram a comprar 100 €, e com certeza houve muitas mercearias e pequenos retalhistas que foram lá abastecer e não compraram menos de 500 € em produto.
- As lojas abriram às 9 da manhã e fecharam às 18, mas vamos considerar o período de compras até às 19 horas porque muitos consumidores ainda se encontravam na loja quando as portas fecharam. Foram portanto 10 horas de abertura.
- Para cada acto de compra vamos considerar 15 minutos. Ou seja para passar os produtos na caixa registadora e pagar vamos considerar 15 minutos por consumidor. Portanto, ao longo do dia, cada caixa registadora teve 40 actos de compra (600 minutos/15 minutos). Se fizermos uma média de 10 caixas registadoras por loja (algumas têm 2, outras têm 30) temos então um total de 400 actos de compra por loja.
Fazendo então as contas temos: 120 € x 50% de desconto x 396 lojas x 400 actos de compra =
9.504.000 €!

Trata-se então de uma oferta total aos consumidores de quase 10 milhões de euros. Com alguma margem de erro nos pressupostos, acredito que o custo real desta promoção se encontre entre os 8 e os 12 milhões de euros
De acordo com o relatório de contas de 2011, o Grupo teve um resultado líquido de 340 milhões euros, sendo que mais de metade deste valor vem da Polónia. Poderá então o Pingo Doce sacrificar à volta de 10% do seu resultado liquido num único dia do ano?
A JM está então disposta a ajudar os portugueses, como afirmou esta semana, mas com os custos saídos do seu bolso? Estará disposta a dar estes 10 milhões de euros e sacrificar a sua margem?
Não me parece que isto vá acontecer. As marcas vão ser pressionadas até à morte para financiarem esta operação e não vão poder fazer grande coisa se não pagar… Primeiro vão dizer que não sabiam da acção e não tinham nada combinado em relação a pagamentos... mas de certeza que receberam encomendas fora do normal na semana anterior e não se importaram muito esse facto quando estavam a fazer os números de Abril.
Muita imprensa informou que o Pingo Doce fez dumping mas também já foi referido que vai ser muito complicado provar isso.
Por isso agora é aguardar pela autoridade da concorrência e também pela reacção do mercado, nomeadamente da Sonae. Estes senhores são os líderes de mercado em Portugal e não se vão deixar ficar assim... Para além disso se os fornecedores pagarem a acção do Pingo Doce é certinho que também vão ter de pagar uma à Sonae. O departamento de Marketing e Comercial da Sonae não fica nada atrás do Pingo Doce em termos de competência e por isso vamos aguardar pela resposta… quem sabe um 60% de desconto? Ou fazer 50% de novo mas desta vez com guarda-costas garantido para zelar pela segurança de quem está nas lojas?
Quanto ao dia da acção ser o feriado do trabalhador ou a confusão que foi gerada nas lojas só tenho a dizer que de facto a JM poderia ter reforçado a segurança nas lojas para evitar acidentes. Muitas das lojas têm corredores estreitos, parques de estacionamento pequenos e era de prever que animos pudessem exaltar. De resto todos os dias são dias e cada um faz o que lhe apetece. O simbolismo de determinados feriados pode significar muito para alguns e menos para outros. Por isso considero descabido qualquer questão face ao facto de as lojas estarem abertas neste dia ou mesmo criticas aos consumidores que lá foram aproveitar boas oportunidades.
Acabo este artigo com o mote que encontrei no relatório de contas da JM:
A certeza de um bom caminho nasce
do rigor do seu planeamento,
da disciplina na sua execução,
do controlo dos resultados atingidos.
Think about it!

quarta-feira, 28 de março de 2012

O Velho e o Mar!

O Amor, esse sentimento complicado de explicar e de dificil conjugação com a vida! Sei muito pouco sobre esta área... mas uma vez ouvi uma história no nordeste Brasileiro, que pelo menos me deu uma luz sobre os timings do amor!

À falta de assuntos agrícolas, gostava de imortalizar essa história no meu Blog dos Bosques durante esta tarde solarenga em Portugal:

Fax muito muito teimpo... esperem... é melhor escrever em Português... Há muito muito tempo atrás, os sentimentos viviam todos em ilhas. Cada um vivia na sua ilha e assim decorria a vida em paz.

Um dia o nível do mar começou a subir e os sentimentos começaram a fugir das suas ilhas. Mas o amor, que vivia em paz e harmonia na sua ilha, não tinha um barco para escapar...

Ao lado da sua ilha iam passando os outros sentimentos ao leme dos seus barcos mas ninguém o ajudava...

Chamou a Alegria mas esta não ouviu... chamou a Saudade mas esta não ouviu... chamou a Inveja mas esta também não ouviu...

Quase condenado à morte, com àgua a transbordar na sua ilha, eis que chegou um velhinho num barco e salvou o Amor!

Durante a viagem o velhinho não disse nenhuma palavra... mas quando chegou à ilha onde os sentimentos se tinham então reunido, o Amor foi perguntar à Sabedoria quem era aquele senhor?

A Sabedoria sorriu e respondeu: " Aquele velhinho é o tempo, pois só o tempo consegue encontrar um grande Amor!"


E assim foi a história que me ficou até hoje e acho que tem algum fundamento, especialmente nestes tempos de crise e descrença no futuro!

O Amor deve ser vivido com os nossos amigos, familia, e tudo aquilo que nos rodeia.. se o tempo ajuda ... acho que sou levado a concordar que sim. Deve ser praticado todos os dias (não esse amor que estão a pensar)... e devemos aplicá-lo ao próximo e a tudo o que fazemos na nossa vida como o trabalho ou os estudos!

A próxima vez que virem um velhinho num barco...think about it!

quarta-feira, 14 de março de 2012

O mundo como eu o vejo no RAC!

Terminados os exames deste trimestre, tempo para um pouco de descanso, ir a Londres e também Portugal passar a páscoa! Altura para escrever sobre a maneira como vejo as pessoas e a sociedade que me rodeiam aqui em Inglaterra, um tema que já queria escrever há algum tempo.

Inglaterra é um dos países mais poderosos do mundo em todas as esferas. Foi aqui que se iniciou a revolução industrial e foi também aqui que nasceram alguns dos mais brilhantes cientistas, escritores, desportistas, pensadores e artistas da nossa história. Em tempos foram um império e sobreviveram de forma corajosa aos ataques alemães na Segunda Guerra Mundial.



Todo o trajecto histórico deste país está patente no dia a dia. Há um orgulho em ser Inglês inexplicável, o chamado orgulho nas origens e no passado.

Em Portugal temos orgulho no Vasco da Gama, Viriato, Afonso Henriques e noutras façanhas passadas como as protagonizadas por Eusébio. Temos orgulho nas nossas praias, comida e alguns casos de sucesso empresarial. Mas lá no fundo sabemos que podemos ser melhores e temos capacidades para o ser, basta olhar para Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Saramago, Durão Barroso, António Damásio e outras personagens que através do seu trabalho, esforço e personalidade conseguiram uma projecção e uma recompensa  que não seria possivel apenas em Portugal.

Quando estive na Argentina em 2008, lembro-me que todos os dias na televisão, passavam imagens do Maradona quando este conquistou o campeonato do mundo em 1986 no México, motivo de grande orgulho para todos os Argentinos juntamente com Eva Péron, Carlos Gardel e Che Guevara.

Tal como os Argentinos porque há esta sensação de que Portugal e os Portugueses vivem no passado? E no fundo, qual é a utilidade disto?

Em Inglaterra evoca-se o passado para viver o presente e reforçar o futuro. A memória não serve apenas para vaidade e a história e os ensinamentos dai retirados estão enraizados de forma profunda neste povo. Em Portugal, apenas nos lembramos das coisas boas e mesmo assim temos muita dificuldade em aprender com elas.

Mas esta vaidade pode ser vista muitas vezes de forma arrogante. Os Ingleses pensam que são óptimos em tudo, no desporto, na economia, na pompa e circunstância, na agricultura, nas tradições, na história, etc.. mas que mal é que isto tem se tiver um impacto positivo no bem estar das pessoas e na sociedade? Que mal é que isto tem se as coisas de facto funcionam e andam para a frente?

Mas a minha questão vai mais além disto...Como é que este país funciona na prática? Como é que é possivel? Quem vive aqui tem que se perguntar isto...

O alcool é um dos pilares da sociedade. Aqui no RAC e mesmo em Londres, é tradição sair do trabalho e ir beber cerveja nos pubs. Nas gerações mais jovens o alcool é o catalizador para comportamentos que não se podem ter durante o dia. É uma forma de se libertarem e terem conversas que não conseguem ter de forma sóbria. Os Ingleses são timidos e bem comportados durante o dia... e a disparidade a que se assiste quando consomem alcool é impressionante!

Apesar de estarmos a falar de pessoas novas, entre os 20 e os 30 anos, as coisas que acontecem aqui no RAC são extraordinárias. Adoram pôr-se nus em locais publicos., aliás o nudismo nos bares é claramente uma tendência. Adoram cair para o chão e rebolar e não há noite em que saia que não fique encharcado em cerveja.

Gostam de ir ao WC na rua (pensavam que eramos só nós?), no outro dia vi dois miudos a fazê-lo na porta de uma igreja. Gostam de gritar e falar alto. Elas vivem para maquilhagem e para os bronzeados falsos. Será que não se apercebem que a cor do pescoço é diferente da cor da cara? Mas depois vestem-se horrivelmente mal com calças de fatos de treino e meias de cor berrantes. Não sou nenhum critico de moda mas há conjuntos que não fazem sentido! A melhor parte na roupa é mesmo a falta dela. Quando estão temperaturas negativas e se vê pessoal de t-shirt e elas com vestidos curtos e saltos altos, a andar desordenadamente como se estivessem a pisar uvas, está tudo explicado, como é possivel?



Neste momento estão a ser as corridas de cavalos em Cheltenham, as mais famosas do mundo. Ontem recebemos um mail da universidade a incentivar para irmos a correr para as casas de apostas e meter dinheiro nos cavalos!! Sim, recordo que estamos em Inglaterra.

Esta mesmo universidade envia mails a dizer que há surtos de doenças sexuais no campus e que os jovens devem usar persevativos. Gosto desta frontalidade mas não deixa de ser estranho, imaginem o que seria isto acontecer na Universidade Católica ou no ISCTE?

Nesta semana está também a decorrer a campanha para a Associação de Estudantes do próximo ano. Pensaria eu que para além do habitual barulho e posters, pudesse haver de facto algumas promessas políticas como música nos intervalos e um campeonato de futebol. Nada disso! O segredo da campanha são posters com o máximo de nudismo possível!




Noutros sitios como nos subúrbios das cidades, floresce uma classe adolescente criminosa e deliquente, como ficou patente nos distrúrbios causados no verão passado em Londres e noutras cidades.

Nas cidades Inglesas, vivem pessoas de todos os cantos do mundo: desde Chineses a Africanos passando por Paquistaneses a Brasileiros, todos tentando integrar-se na sociedade e educando os filhos da melhor maneira possível.

Na Europa, querem-se proteger do Euro e das políticas comuns, com medo de entrar num barco que  parece que se está a afundar!

Daqui a minha pergunta: como pode isto funcionar?

Como pode um povo ser tão extremo e bárbaro nos seus comportamentos e ao mesmo tempo ser tão civilizado e funcionar? Como pode a minha universidade ser tão selvagem e ao mesmo tempo ser uma escola com tudo TOP desde as instalações e professores até às actividades desportivas? E o que é que se passa aqui que faz com que estas pessoas se tornem adultos civilizados e integrem uma das sociedades mais fortes do mundo em termos de identidade e cultura?

A minha resposta é aquela que dei no inicio deste texto: Em Inglaterra evoca-se o passado para viver o presente e reforçar o futuro. Há um sentimento de confiança em algo invisivel. Algo que diz aos jovens e às pessoas que tudo vai correr bem e funcionar com base nas referências que têm e nas instituições que os regem. Os jovens sabem que há um tempo para se divertir, um tempo para viajar, um tempo para os copos e também um tempo para trabalharem e terem uma familia. Sabem que fazem parte de um todo e que há um espaço para eles nesse todo.

Eu acredito neste sistema e identifico-me apesar de haver muita coisas que estão erradas claro. Há loucura e coisas más, mas há produtividade e orgulho nas tradições. E esse sentimento de que as coisas vão FUNCIONAR e correr bem existe de facto... isto anda no ar! É como se o departamento de Marketing de Deus para Inglaterra tivesse um bom gestor e o de Portugal nem por isso!

Para além de me rir e muito com tudo o que se passa, e de já ter feito bons amigos, estou inserido num sistema de ensino muito eficiente e profissional. Os professores são claros e objectivos. Não faltam e não chegam tarde às aulas. Também não ficam a debitar matéria para além do toque como se alguém ainda estivesse a ouvir. A iteracção entre as aulas práticas e teóricas é extraordinária. Enfim, um sistema de ensino pragmático que motiva e prepara para o futuro.

Noutras àreas também se vê este bom funcionamento: os policias andam sem pistolas, os transportes púbicos chegam a horas, eliminaram o hooliganismo, lutam contra o racismo e nos estádios há avisos a dizer que quem disser asneiras será convidado a abandonar as instalações.



Quando vemos uma foto do Big Ben, para além de vermos as horas, pensamos em civismo, força, confiança, resistência, democracia, oportunidades e muitos outros sentimentos que formam a tal força invisivel do funcionamento eficaz e eficiente de Inglaterra!


O que podemos nós fazer para que as pessoas olhem para uma foto da Torre de Belém e pensem assim também?

Think about it...

Best regards, 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lê um livro, planta uma àrvore, mata um bófia!

Ler é como ver um filme na nossa cabeça. Quando estamos a ler um livro, a maneira como imaginamos os espaços ou as personagens é algo muito individual. Muitas vezes o livro até se transforma em filme.. o que nos permite visualizar numa tela daquilo que antes eram apenas palavras.

Há 5 meses vim para Inglaterra morar para uma residência que não tem televisão. Em Lisboa tinha tv na sala e no quarto e sentia-me feliz e realizado quando pegava e deambulava para cima e para baixo na minha box da Meo em busca de algo que me trouxesse ocupação para os momentos que se seguiam. Tinha tudo (excepto canais obscenos claro), desde a Sport Tv até aos filmes, passando pelos directos do Biggest Looser e Casa dos Segredos. Depois de um dia de trabalho ou num fim-de-semana de mau tempo o que podia ser melhor que isto?

A verdade é que nos últimos meses recuperei o velho hábito da leitura e estou muito entusiasmado com isso. Em criança lia e ficava fascinado com as histórias de jovens aventureiros como "Uma Aventura", "Clube das Chaves", "Triangulo Jota" e as "Viagens no Tempo" de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, ilustrações de Arlindo Fagundes (haha lembram-se do anúncio da tv?). A minha mãe levava-me às Amoreiras aos fins-de-semanas e não saiamos de lá sem um livro destes que custava à volta de 650 escudos. E aquela sensação de colocar na prateira mais um volume no armário já colorido e contribuir para o aumentar da colecção era tudo!

Também lia Patinhas, Tintim, Asterix, Mafalda e Lucky Luck. A banda desenhada que depois evoluiu para o Calvin & Hobbes e outros do género também faziam parte das prateleiras coloridas. Tinha também aqueles livros verdes de aventuras que se jogavam com dados e nos davam ordens do género: "Se queres lutar contra o monstro de 3 cabeças vai para a página 397, se queres entrar na porta do castelo de Zion vai para a 408". Muitas vezes morria mas voltava sempre atrás claro!

Depois na escola obrigaram-nos a ler certas e determinadas obras com o argumento fascista de que "faz parte do programa nacional de leitura do ensino secundário proclamado pelo ministério da educação". Adorei os Maias por exemplo mas não tinha maturidade para ler a história de Anne Frank ou a Mensagem de Fernando Pessoa. Foram livros que de facto desanimaram o meu gosto pela leitura.

Mas lá continuava a ler qualquer coisa que encontrava no escritório do meu Pai ou que comprava na livraria do Fonte Nova. Acho que é muito importante para os pais que queiram estimular a mente das crianças ter livros em casa. Livros de viagens, livros grandes, livros pequenos, enciclopédias, romances, aventuras, policiais, o que fôr, mas é importante para que os filhos possam desenvolver os seus próprios gostos e quem sabe até destruir um ou outro pintando-os com lápis de cera.

Durante os últimos 10 anos, comecei a gostar de biografias personagens da história, romances de familias numerosas da América de Sul, livros sobre a história do Séc. XX policiais, romances e mesmo do grande Harry Potter!

Mas apesar de me considerar um leitor assiduo em relação à minha geração por exemplo, dentro de mim perguntava-me como é que certas pessoas conseguem ler tanto? Onde arranjem tempo ou paciência e será que já leram todos aqueles livros que têm em casa? Em Portugal quando as pessoas dizem que já leram isto ou aquilo cria-se um desconforto e desconfiância face a veracidade ou mesmo nível intelectual da pessoa. Sou apenas eu que sinto isto? Também me perguntava como é que ao domingo o Professor Marcelo Rebelo de Sousa tinha lido todos aqueles livros apenas numa semana??

Enfim, não me tornei um rato de biblioteca mas gosto de olhar para a minha mesa de cabeceira e ter em aberto a opção de à noite ler um ou mesmo vários livros e embarcar numa nova aventura. Desde que cheguei em setembro já li várias obras e só em 2012 já li "Os Irmãos Karamazov" de Dostoievski, "Crónica de uma morte anunciada" de Gabriel Garcia Marquez e o "Caso Rembrandt" de Daniel Silva, recomendo todos!!

Foi precisamente este último livro que me fez escrever esta mensagem no blog de hoje. Comecei o livro na quarta-feira passada e acabei ontem, domingo, as suas 444 páginas. Não é nenhum clássico ou obra prima mas é um livro emocionante, com muitas referências históricas e que até me fez ficar emocionado no fim com uma situação que nem sequer estava relacionada com lamechices de amor... apenas me deixei envolver! Quantos livros já vos fizeram chorar ou quase chorar? Pois é, os livros também podem ter este poder!

Muitos livros começamos a ler e parece que não entramos neles... que a coisa não anda para a frente! Pode ser que ainda não estejamos preparados para aquele livro ou que nunca vamos estar mesmo!! Não tem mal nenhum, também há filmes que não gostamos por exemplo!

O importante é não perder este hábito que tanto contribuiu para a evolução da nossa espécie!

Ler aumenta o nosso conhecimento e permite-nos viajar ao mesmo tempo que imaginamos coisas novas. É uma das artes mais acessiveis a toda a gente e pode fazer a diferença na construção de quem somos. Por isso recomendo.. leiam à noite na cama ou nos transportes públicos. Ajuda a passar o tempo e só nos enriquece! Somos nós que gerimos o nosso tempo e só depende da vontade de cada um.

A próxima vez que forem à Fnac... think about it! (ou melhor...comprem nas livrarias mais pequenas para salvar os pequenos comerciantes).

Best regards,

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Trigo em Portugal - what are we doing??

O trigo é o cereal mais produzido em todo o mundo. De acordo com dados da FAO de 2006, a produção mundial foi de 600 milhões de Toneladas, obtidos através de 220 milhões de hectares, o que dá um retorno de aproximadamente 3 toneladas por hectare. A importância deste cereal deve-se em grande parte à sua adaptabilidade agronómica a diferentes condições, facilidade de armazenamento, níveis nutricionais e a capacidade de elaborar diversos produtos através da farinha produzida dos seus grãos.

A massa que é produzida que através da farinha de trigo possui a capacidade única de levedar e fazer, entre outros produtos, o pão, que é a base da alimentação mundial desde há muitos séculos. Para além do pão podem ser feitos produtos através do trigo, tais como noodles, esparguete, bolachas, biscoitos, cereais e papas de pequeno almoço, croissants, pizzas e comida animal.

Existem dois tipos de trigo:

- Triticum Aestivum ou trigo mole,

- Triticum Durum ou trigo duro.

A caracteristica mais importante quando o trigo é colhido é o seu nível de proteina. O trigo duro é usado somente para fazer esparguete e o seu nível de proteína é bastante alto, à volta dos 15%.

O trigo mole pode ter diversos níveis de proteina e dependendo desses niveis, irão ser efectuados diferentes produtos. Se tiver um nível de proteina abaixo dos 8% é usado como comida animal. Se fôr à volta dos 9% vai para as áreas de pastelaria, bolachas e biscoitos. Para fazer pão é necessário um nivel á volta dos 12%.

Mas podemos controlar estes níveis enquanto produzimos este cereal?

A quantidade final de proteina no trigo é influenciada pelas condições de crescimento tais como a fertilidade do solo, a chuva, a temperatura e as condições de armazenamento e transporte dos grãos de cereal.

Obviamente que há variedades de trigo mole mais propensas para obter determinados níveis de proteina, mas no geral estas são afectadas pelas condições de crescimento da planta, que por sua vez também podem ser influenciadas, com um custo associado claro. Mas no geral, até colherem o trigo, os produtores ainda não sabem ao certo qual vai ser o output em termos de proteina.

É por este motivo que os diferentes países trocam entre si diferentes tipos de trigo: porque o seu clima não lhes permite atingir determinados tipos de proteina e como tal precisam de importar. O trigo inglês é muito bom para fazer bolos e especialmente bolachas (quem nunca comeu as famosas Walkers), enquanto em Itália por exemplo estão reunidas as condições perfeitas para fazer um trigo próprio para esparguete, daí esta comida ser bastante famosa na região.

Tal como outro cereal qualquer, seja ele cevada, arroz ou aveia, o trigo é produzido através de sementes que são embriões transformados para resistir a doenças e proporcionar um determinado nível de produção. Ou seja, o produtor selecciona a variedade que quer crescer, e escolhe-a segundo o seu potencial e condições do seu terreno em termos de solo, temperaturas e irrigação.

Por exemplo, um produtor pode escolher a variedade X de trigo mole e sabe que em laboratório o seu potencial são 15 toneladas por hectare. Mas para chegar a estas 15 toneladas é necessário determinada quantidade de àgua ou fertilizante que tem um custo obviamente. Ou seja, o segredo da produção deste cereal não é atingir o potencial máximo da variedade a qualquer custo, mas sim controlar a conta de exploração para obter o máximo proveito marginal. Quando o produtor pensa em colocar mais um 1 kg de fertilizante ou pesticida, ou 1 litro de água, ou mais 1 saco de sementes, deve ter em conta se esse custo lhe vai trazer mais proveitos marginais ou não. Se não trouxer não vale a pena colocar.

Nesta lógica de inputs vs outputs os países com maiores toneladas por hectare são a Inglaterra, Holanda, Bélgica e Suécia com cerca de 9, enquanto Portugal, Grécia, Espanha e Marrocos anda à volta das 2, isto devido às condições de crescimento.

De facto em Portugal as condições de crescimento parecem não estar reunidas, embora isso também não seja desculpa para a nossa fraca produtividade num cereal desta importância. É um facto que os nossos solos são na sua maioria ácidos e possuem pouca matéria orgânica. Para além disso a chuva não cai em quantidade suficiente nas alturas mais criticas para a planta. Mas para um país que pretendia ser o celeiro da Europa, penso que neste momento somos mais a vergonha da Europa.

Em 2010 produzimos cerca de 80.000 toneladas de cereais segundo dados do Eurostat. Só para se ter uma noção este número foi igual à produção do Luxemburgo no mesmo período!! Também no mesmo ano, Espanha, um país com condições agronómicas semelhantes às de Portugal, embora em algumas àreas bastante melhor, produziu 6.000.000 de toneladas, ou seja 75 vezes mais..

Em termos de consumo, precisamos de 1.100.000 toneladas por ano em Portugal, o que significa que estamos neste momento com um grau de dependência externa de mais de 90%.

Precisamos plantar mais hectares deste cereal vital para a alimentação e reduzir a nossa dependência das exportações, pois com o aumento dos preços que se têm verificado nos últimos anos, para além de se tornar mais rentavel produzir internamente, torna-se mais caro importar. Com o aumento da procura deste cereal para alimentar animais (que por sua vez vão alimentar as classes médias dos paises em desenvolvimento como a China), temos de ter um maior grau de autosuficiência pois vai haver muitos paises a guardar as colheitas para consumo interno.

Porque não há um plano interno para se produzir estas 1.100.000 toneladas dando incentivos aos produtores e garantido emprego e uma produção nacional?

Porque não existe (pelo menos não encontrei nas minhas pesquisas), uma associação nacional que estimule as boas práticas de produção, discuta estes números, exponha novas técnicas agronómicas (variedades a cultivar, nitrogénio a aplicar, etc..) e envolva ao mesmo tempo retalhistas, traders e agricultores? Será que o Pingo Doce ou a Nestlé não ficariam mais satisfeitos em comprar algo que é produzido em Portugal e onde até poderiam visitar os campos? Mas se for mais barato comprar à China qual é o incentivo?

Em conclusão, o trigo é uma fonte de comida bastante importante por causa das suas características únicas e nível de nutrientes. Portugal deve incrementar a sua produção interna de forma a tornar-se mais autosuficiente e deste modo evitar a incerteza futura dos mercados em termos de preço e produção. No entanto este é um grande desafio para o país pois parece que as condições naturais não estão reunidas.

A próxima vez que comerem um pão com queijo... think about it!!

Regards,

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Galinhas - como funciona a produção e o mercado?

A carne proveniente das aves é muito apreciada nos diversos países espalhados pelos cinco continentes. Refiro-me concretamente a galinhas, patos, perús, gansos, etc.. ou seja aquelas espécies que foram domesticadas pelo homem com vista ao aproveitamento da carne, ovos ou penas para as almofadas ou casacos Duffy!

A carne destes animais é mais barata, fácil de cozinhar, há muitas receitas para aplicar, existem também bastantes espécies e partes distintas dos animais e para além disso têm um elevado valor nutritivo com baixos níveis de gordura e colestrol associados.

Em termos de produção mundial o maior produtor são os EUA com cerca de 32% da produção total, logo seguido da China com 24% e UE com 16%. Na União Europeia a produção tem estabilizado ao longo dos últimos 40 anos e trata-se de uma àrea auto-suficiente. No entanto, em termos mundiais, a produção passou de 15 milhões de toneladas em 1960 para cerca de 70 milhões no início deste século. Este salto na produção, bastante impulsionado pela India e China, foi superior às taxas de crescimento verificadas na carne de porco e vaca. Na Europa os maiores produtores são o França, o Reino Unido e Itália, contabilizando entre si mais de 50% da produção Europeia.

A produção de ovos ou carne de galinha está normalmente associada a sistemas bastantes intensivos, à semelhança do porco. São àreas não subsidiadas, o que traz à palavra eficiência um significado ainda mais importante. Trata-se de um mercado tão eficiente que normalmente a cadeia de valor está debaixo da alçada de uma só organização: desde o nascimento, criação, abate, processamento, embalamento dos animais passando pela criação de marcas, estratégia de marketing e negociação com os retalhistas, há muitas empresas que tratam de tudo, o que não é normal nos mercados actuais, pois com a crescente especialização e globalização há àreas que compesa mais serem operadas por terceiros, muitas vezes a milhares de kilometros.

Mas o que são estes sistemas intensivos de produção?

São sistemas onde se procura maximizar a rentabilidade do animal. Tratam-se de instalações indoor, onde através do agrupamento dos animais pela fase de produção (idade, peso, gravidez, regime alimentar), é possível uma gestão mais eficaz da alimentação, cuidados veterinários e transporte dos animais. Normalmente os animais encontram-se em gaiolas se estivermos a falar de produção de ovos, ou então se fôr produção de carne, estamos a falar de àreas circunscritas onde se encontram centenas de animais em contacto uns com os outros mas onde tem de haver um minimo de espaço por animal, é como que uma jaula mas maior. Na cabeça do consumidor estes regimes intensivos estão mais associados aos porcos e às galinhas do que às vacas e às ovelhas. Também na cabeça do consumidor, tais aglomerados de animais, são significado de problemas de bem estar para os animais e facilitam a propagação de doenças, como por exemplo a recente gripe das aves, que na Ásia ainda não está totalmente erradicada.

Nestes sistemas intensivos, e isto funciona para qualquer espécie de carne que consumimos, o objectivo é que o animal cresça o mais rapidamente possível para que tenha o mínimo de custos associados. Tal como nas outras espécies animais que já vimos neste blog, a alimentação é sempre o custo mais elevado, portanto quanto menos tempo eles permanecerem vivos, mais barato será o custo de produção. Nas galinhas têm-se feito avanços monumentais em termos da eficiência.

Através de uma alimentação baseada em cereais e concentrados e através do progresso no conhecimento genético dos animais, é possivel hoje em dia mandar-se uma galinha para o matadouro 34 dias após o seu nascimento. Em 1950 falavamos de 85 dias. Ou seja, para uma galinha atingir os 1,80 kgs necessários para estar em conformidade com os gostos do consumidor e exigências dos retalhistas, é necessário pouco mais que um mês...

Até na produção de ovos, os avanços foram extraordinários. Em 1960, a produção nestes sistemas intensivos, era de 208 ovos por galinha/ano. Hoje em dia, já estamos a falar de 311 ovos por galinha/ano, o que significa quase 1 ovo por dia! E em termos de inputs a gestão também evoluiu bastante: há 50 anos atrás eram necessários 3,4 kgs de comida para fazer um ovo, sendo que hoje em dia este valor baixou para 2,2kgs.

Mas voltando ao bem estar dos animais, o que está a ser feito nesta àrea?

A nova legislação da UE para os sistemas intensivos tem estado bastante em foco pois em 2012 entrou em vigor uma nova lei que obriga os produtores de ovos a substituirem as antigas gaiolas de produção de ovos, que tinham 450 cm2 (o espaço de uma folha A4), por gaiolas maiores com 750 cm2, onde exista espaço para um ninho e onde as galinhas possam de certa forma expressar melhor os seus comportamentos naturais. Muitos países ainda não adoptaram estas novas medidas e poderão ser penalizados por isso, Portugal é um exemplo. Alguns produtores serão forçados a abandonar o negócio porque a aquisição de novos equipamentos não será comportável do ponto de vista financeiro. Isto também poderá trazer penalizações em termos de competitividade nas exportações europeias, pois nos EUA por exemplo, continuam a existir as antigas gaiolas e cerca de 80 a 90% dos animais habitam neste sistema.

Mas será isto suficiente para o bem estar dos animais?

As associações de defesa dos animais encaram estas mudanças como pura demagogia. Aumentar o espaço em 300 cm2 não é de perto nem de longe suficiente para garantir a saúde e bem estar dos animais.

Mas o mercado tem estado atento a este facto, e prova disso é o sucesso do segmento free range. Tratam-se de galinhas que têm uma capoeira e acesso livre aos campos. No UK os ovos deste segmento já atingiram uma quota de mercado de 50%. Trata-se de uma maneira de aumentar o welfare dos animais e muitos supermercados como o Sainsburys e Marks & Spencer já só vendem ovos deste género. O preço a pagar é no entanto alto. Com este sistema chamado extensivo (ao invés do intensivo), os animais crescem de forma mais lenta, tendo por isso mais custos de alimentação e para além disso a sua gestão diária exige mais recursos humanos. Todos estes custos são passados para o consumidor que paga um premium por estes produtos. Em consulta ao site do Continente, encontrei diferenças por Kilo que chegam aos 2,5 € entre o frango de campo e o convencional. Muitos consumidores afirmarão que o frango free range é com certeza mais saboroso mas será que as suas carteiras comportam este esforço?

Muitos produtores contestam esta forma de criar as galinhas. Alguns afirmam que é um desperdicio de espaço que podia estar a ser semeado e alguns estudos até já demonstraram que em muitos casos as galinhas passam a maior parte do tempo dentro das capoeiras. De qualquer maneira, este é claramente um caso em que os produtores vão ter que adaptar os standarts da indústria aos requisitos dos mercados e dos retalhistas, pois o free range é um segmento em crescimento, precisamente devido à maior atenção por parte do consumidor no bem estar dos animais.

Em conclusão, mais uma vez o mercado mostrou-nos que o bem estar dos animais não é negociável! O segmento das aves está a crescer na alimentação mundial e é necessário aprender a melhorar o bem estar dos mesmos. Tem que se arranjar formas de baixar os custos no free range para que não haja uma grande penalização na carteira dos consumidores. Desta forma, haverá mais produtores interessados em entrar no negócio e de forma mais sustentável.

Da próxima vez que comerem um ovo estrelado...think about it!

Regards,